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Heitor Dhalia e equipe de “O Cheiro do Ralo” recebem o Prêmio do Júri de Melhor Filme
EMOÇÃO MARCA O ENCERRAMENTO DA MOSTRAApresentada em conjunto pelos diretores da Mostra, Leon Cakoff e Renata de Almeida, e por Serginho Groisman (que mediou muitos dos debates no Clube da Mostra) e Marina Person, a entrega de prêmios fluiu em clima de comemoração e agradecimento. Quando Heitor Dhalia subiu ao palco para agradecer, por O Cheiro do Ralo, o troféu Bandeira Paulista de melhor longa-metragem da competição de novos diretores, ele comentou: “Há treze anos, mudei-me para São Paulo para investir na carreira de cinema e para poder acompanhar a Mostra. Lá em Recife não se tem tanto acesso a filmes. Estar agora aqui em cima, com este prêmio, é muito especial.” Tata Amaral também relacionou sua presença ali ao evento. A cineasta sempre foi espectadora e freqüentadora da Mostra e, no primeiro ano em que participou da seleção, com Antonia, ela se disse muito feliz por ter dividido o prêmio do público – e, em conseqüência, o prêmio Petrobras Cultural de Difusão – com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger. Esse aspecto especial da Mostra foi reiterado por Cláudio Lembo, o primeiro governador de Estado a comparecer a uma cerimônia de encerramento em trinta anos, como observou Cakoff. Disse Lembo que é muito bom ver os frutos da abnegação de Leon, num projeto que há muito faz parte do patrimônio cultural do Estado (e do país). O governador declarou ainda que há um sabor especial em verificar que, pelo segundo ano consecutivo, um filme brasileiro venceu o grande prêmio do júri, o troféu Bandeira Paulista, no caso O Cheiro do Ralo e, no ano passado, Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. Lembo elogiou os cineastas presentes à cerimônia, destacando sua importância para a identidade cultural do país. Observou-se também como a Mostra agora começa a premiar uma geração de profissionais formada por ela própria. Afinal, pensando nas três décadas de existência, muitos dos brasileiros que subiram ontem ao palco têm a Mostra como algo certo e anual desde que se tornaram gente! Entre inúmeros agradecimentos acalorados, houve pelo menos três momentos de emoção, que fizeram os convidados se levantar em palmas: quando Leon Cakoff buscou na platéia a artista plástica Tomie Ohtake, autora do troféu Bandeira Paulista, para esta entregar o Prêmio Humanidade ao cineasta italiano Vittorio De Seta; quando o ator Gerardo Taracena preparou Don Angel Tavira – um longo e reverente momento de silêncio – para este dar uma cancha com seu violino, em agradecimento ao prêmio especial do júri recebido pelo filme mexicano que representavam, O Violino; e quando do eloqüente discurso de Milton Gonçalves, que veio apresentar, ao lado de Maria e de Antonio de Andrade, a exibição especial da cópia restaurada de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade – Milton falou de passado pessoal, cinema, Brasil e consciência negra. A cerimônia brindou de forma clássica uma edição que contou com 220 mil espectadores, 20 mil a mais do que no ano passado, reflexo imediato da redefinição de classificações indicativas – até no ano passado proibida como um todo para menores de 18 anos, a Mostra este ano definiu a censura específica de cada filme, o que abriu as portas aos adolescentes. Reconfirmou-se assim o caráter de formador de público. Este assistiu, em 19 salas, a 292 longas, 99 curtas e 29 médias-metragens, de 44 países. É fôlego, curiosidade e gana para muitas outras edições comemorativas. Premiados da 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo Melhor Filme – Prêmio do Júri: O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia Prêmio Especial do Júri: O Violino, de Francisco Vargas (México) com menção especial para o ator Don Angel Tavira Prêmio do Júri – Melhor Ator: Adel Imam, por O Edifício Yacoubian (Egito) Prêmio do Júri – Melhor Atriz: Maria Lundqvist, por Minha Vida Sem Minhas Mães (Finlândia) Prêmio do Júri – Menção Honrosa (pela elaboração visual) :O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger (Brasil) Prêmio do Público – Melhor Curta Brasileiro: Primeira Vez, de Fabrício Bittar Prêmio do Público – Melhor Média Brasileiro: Deus e o Diabo em Cima da Muralha, de Tocha Alves e Daniel Lieff Prêmio do Público – Melhor Longa Estrangeiro de Ficção: Rosso Come il Cielo, de Cristiano Bortone (Itália) Prêmio do Público – Melhor Documentário Estrangeiro: Uma Verdade Inconveniente, de Davis Guggenheim (EUA) Prêmio do Público – Melhor Curta Estrangeiro: Eu Quero Ser Piloto, de Diego Quemada-Diez (Quênia/México/Espanha) Prêmio do Público – Melhor Média Estrangeiro: Jana Sanskriti – Um Teatro em Campanha, de Jeanne Dosse (França) Prêmio da Crítica – Categoria Internacional: Hamaca Paraguaya, de Paz Encina (Paraguai/França/Argentina/Holanda) Prêmio da Crítica – Categoria Nacional: O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia Prêmio Petrobras Cultural de Difusão – Melhor Longa Brasileiro de Ficção: Antonia, de Tata Amaral (R$ 200 mil) e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger (R$ 200 mil) Prêmio Petrobras Cultural de Difusão – Melhor Documentário Brasileiro: Fabricando Tom Zé, de Décio Matos Jr. (R$ 200 mil) Prêmio da Juventude (votos de estudantes secundaristas dentro da seção Festival da Juventude): Minha Vida Sem Minhas Mães, de Klaus Harö (Finlândia) Prêmio Humanidade: Vittorio De Seta, cineasta italiano de Banditi a Orgosolo (1961) e Cartas do Saara (2006), convidado de honra da 30ª Mostra
Escrito por Mostra às 18h00
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 Ricardo van Steen, Heitor Dhalia, Tocha Alves e Regis Faria
Heitor Dhalia: Colado aos Personagens
Para que o personagem central ocupasse a tela o tempo inteiro, com a câmera colada em sua nuca, foi preciso que todos, dos atores aos técnicos, acreditassem espontaneamente num projeto coletivo. Quem conta a história é Heitor Dhalia, diretor e co-roteirista de O Cheiro do Ralo, seu segundo longa-metragem, que integra a seleção da 30ª Mostra. Ele revela que a experiência na realização desse filme foi única, já que era um projeto fadado à gaveta. Ninguém acreditava nele e o título foi rejeitado. Todos se espantaram quando a equipe resolveu fazê-lo de qualquer maneira. Concluído, o filme conseguiu distribuição, ganhou prêmios e tem conquistado as pessoas. “É a clássica história da volta por cima”, diz Dhalia, mas com um gostinho especial. “O amor que a equipe colocou no trabalho bate na tela e volta para o espectador”, avalia.
O personagem principal, Lourenço, ocupa sempre a tela porque a câmera persegue Selton Mello. Dhalia, que em seu filme anterior, Nina (seleção da 28ª Mostra), colou em Guta Stresser, confessa sua tendência em grudar nos personagens, fazendo-os onipresentes. No próximo filme, revela que também será assim. Mas será um desafio ainda maior, já que a protagonista desta vez é uma garota de 14 anos. Conta ainda que seus personagens são anti-heróis falíveis e com defeitos, porque, de alguma maneira, o anti-herói humaniza. Em O Cheiro do Ralo, no qual o protagonista é um escroto perverso, o jogo é ainda mais interessante. Há algo nele com que as pessoas se identificam. Todo mundo tem um ralo que fede e um cheiro nem sempre possível de esconder. Dhalia revela-se espantado com a reação das pessoas ao filme, já que o humor (negro) as faz rir em momentos extremamente cruéis. Para ele, é preciso mostrar este lado B que existe em cada pessoa, principalmente se ela conseguir rir de si mesma. E conclui: “Alguns pequenos defeitos do ser humano são encantadores.”
O cineasta descreve seu método de trabalho: “Às vezes, gosto de pensar no filme como um concerto. Um show de rock mesmo. Poucos instrumentos, poucas notas e muita porrada. Por isso, a trilha de O Cheiro do Ralo, criada pelo Apollo Nove, é puro punk. Incluí ainda músicas francesa, húngara e italiana, uma amostra semelhante às que Lourenço vende na loja”, explica o diretor. Dhalia considera que, sem essa trilha diversa, o filme seria outra coisa. Ele tem dois projetos em andamento, e o primeiro chama-se À Deriva. É a história da descoberta da sexualidade por parte de uma menina de 14 anos, impulsionada pela crise no relacionamento dos pais. O diretor diz que o filme segue o modelo argentino – drama humano puro. O outro projeto que ele começa a desenvolver leva o título de Porto Príncipe. É sobre um soldado brasileiro no Haiti. Aborda a guerra, a miséria e também a esperança. Produção internacional, será falada em português, inglês, francês e creole. Um filme intenso, um projeto grande, que não sai da cabeça do diretor.
Escrito por Mostra às 14h37
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Tocha Alves: Documentário Variado e Dinâmico
Carandiru, o maior presídio da América Latina. Cerca de dez mil detentos e alguns poucos funcionários para controlá-los. Enquanto existiu, a penitenciária foi objeto de reportagens, documentários e filmes de ficção. Mas pouco se falou daqueles funcionários que eram quase-presos e que viviam uma rotina de tensão. Na seleção da 30ª Mostra, Deus e o Diabo em Cima da Muralha, documentário dirigido por Tocha Alves e Daniel Lieff, abordou exatamente esse ângulo. Diz Tocha que a idéia surgiu em 2002, com o iminente fechamento do Carandiru. O médico Dráuzio Varela (autor do livro Estação Carandiru, depois levado ao cinema por Hector Babenco), que ali trabalhou voluntariamente por treze anos, período em que lá dentro fez muitos amigos, falou dessas pessoas. A maioria era formada por funcionários muito antigos e respeitados, explica Tocha, detalhando que o futuro deles sempre foi incerto. O filme é uma espécie de homenagem a essas pessoas que, no fundo, sustentavam a cadeia com muito trabalho, malícia e boa dose de malandragem. São elas que relatam o cotidiano do presídio.
O grande interesse do público por documentários é, segundo o co-diretor, uma tendência que se firma, porque o espectador está em busca de informação, e o documentário é um formato variado e dinâmico. O diretor destaca ainda que de todos os festivais para os quais ele e Lieff enviaram Deus e o Diabo em Cima da Muralha, ambos obtiveram a informação de que havia um número recorde de documentários inscritos. Para Tocha, a parceria na direção com Lieff foi um processo interessante. “Há momentos em que um de nós está mais presente nas diferentes fases do filme”, explica, salientando que com isso puderam tomar decisões com calma, já que da idéia à estréia passaram-se quatro anos. E a parceria também possibilitou a realização em paralelo de outras atividades e projetos. Tocha pretende continuar dirigindo documentários e revela que já desenvolve dois projetos: um sobre música brasileira aqui e no exterior e o outro sobre skatistas brasileiros. Tem interesse em fazer ficção, processo totalmente diverso, porque acha muito bom trabalhar com atores e poder contar histórias que são por vezes difíceis de documentar. Mas ele espera, sobretudo, que o cinema brasileiro continue nessa boa fase de produção.
Escrito por Mostra às 14h36
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Regis Faria: No Universo do Cinema e da TV
Nascido numa família ligada ao cinema e à TV, o pai é o ator e diretor
Reginaldo Faria, Regis diz que o seu ingresso na área deu-se quase que
naturalmente. Participante da 30ª Mostra com Carlos
Oswald – O Poeta da Luz, seu segundo
longa-metragem, o diretor revela que, quando criança, não pensava em ser diretor
ou ator. Mas a convivência com o meio, na produtora de cinema do pai e dos tios
e mais tarde na televisão, fez com que fosse quase inevitável tornar-se
profissional da área.
Regis revela ainda que, na adolescência, queria muitas coisas, como todos
jovens: música, literatura, história, cinema. O começo deu-se mesmo com a
música, fazendo sonoplastia em teatro. Depois foi assistente de direção e,
finalmente, diretor. Confidencia que nesse trabalho reúne todos os seus anseios,
pois o diretor trabalha com edição, roteiro, música, imagem e atores. Com o
lúdico, com o humano e com a tecnologia, acrescenta.
O documentário Vida Bandida (Leonardo Pareja), apesar de
não ter sido exibido em cinemas ou festivais, foi a primeira experiência de
Regis com o longa-metragem. Conta que fez o filme em 1996, meio impulsivamente,
sem medir conseqüências, e considera o resultado consistente e relevante, mesmo
que cru em certos aspectos. Lançado pelo Canal Brasil em 1998, tem sido
reapresentado constantemente e, segundo Regis, aumenta ou mantém o número de
espectadores do horário, segundo dados do Ibope.
Regis recebeu então um convite para realizar Carlos Oswald – O Poeta
da Luz, que, inicialmente, seria um média-metragem para a TV. Mas ao
avaliar o vasto material de pesquisa e a obra do artista, Regis convenceu o
produtor e idealizador Mário Jorge a fazer um longa. Acrescenta que este foi um
grande desafio, pois, ao contrário de Pareja, que tinha enorme apelo social e
contemporaneidade, Carlos Oswald é um artista “comportado”, apesar do aspecto
vanguardista de sua obra no contexto brasileiro. Era então preciso tornar o
filme interessante e dinâmico e, ao mesmo tempo, revelar o descaso e a falta de
crédito às artes plásticas no Brasil.
Duas dificuldades apresentaram-se ao longo do trabalho, iniciado em 2004. A
primeira foi a burocracia para registrar algumas das obras de Carlos Oswald,
apesar da autorização prévia que Regis possuía. A outra, a que atinge quase
todos os cineastas brasileiros: obter recursos para finalizar o filme. Após
documentar uma exposição de obras de Oswald em 2004, Regis parou as filmagens e
retomou as pesquisas em março de 2005. Depois de três meses de coleta de
informações, realizou duas semanas de filmagens e gravação. Seguiram-se mais
três meses de edição e, no final de 2005, o filme estava pronto. A finalização
deu-se apenas em outubro de 2006, pouco antes de a Mostra começar.
Temas tão opostos colocaram Regis e sua equipe em universos díspares. O
diretor relata que em Carlos Oswald ele encontrou o lirismo ausente no universo
cruel de Leonardo Pareja. Neste, o registro do filme deu-se quase que totalmente
dentro de um presídio, onde o clima tenso se debruçava sobre a equipe e, por
mais descontraídas que fossem as gravações, sempre havia uma ameaça pairando no
ar. E a única proteção era a oferecida pelo próprio bando de Pareja, que mais
tarde o assassinou. Em Carlos Oswald, as gravações eram
feitas em museus, prédios públicos, igrejas e livremente pelas cidades.
Diretor também de novelas de TV, Regis diz que o imediatismo desse veículo
não o contamina. Considera a direção de filmes um trabalho mais autoral, do qual
participa em todas as fases, da idéia inicial ao último ajuste de cor e som.
Embora a televisão também permita a marca do diretor no trabalho, ele não tem a
mesma participação em todas as etapas. Regis já está coletando material para
mais um documentário, num projeto com o cantor e compositor Moraes Moreira e seu
filho Davi Moraes.
Escrito por Mostra às 14h35
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Ricardo van Steen: Um Mergulho no Mundo do Samba
A paixão pessoal pelo samba e a rica biografia de Noel Rosa levaram o cineasta Ricardo van Steen a realizar o filme Noel – Poeta da Vila. O diretor enxergou no projeto a chance de passar anos mergulhado no mundo do samba, nas rodas e nas pistas, o que considera um prazer único. No mais, levar às telas esse ícone nacional vitorioso pela poesia pareceu bastante apropriado a Van Steen. O diretor lamentou, no entanto, ter de deixar muitos fatos interessantes da vida de Noel de fora do filme. “Meu primeiro roteiro tinha assunto para cinco capítulos de uma hora”, diz. Os muitos amores de Noel e sua inacreditável destreza para lidar com várias namoradas ao mesmo tempo, as novelas de rádio e as trilhas para cinema que ele compunha em pleno set de filmagem: estas e muitas outras facetas do compositor foram eliminadas do filme.
Van Steen faz questão de ressaltar a importância do trabalho de Luiz Filipe de Lima, responsável pela trilha sonora. Habilidoso compositor e instrumentista, Luiz Filipe é o colaborador mais antigo do projeto. Mais do que cuidar da trilha, ele serviu como uma espécie de embaixador do projeto junto à comunidade do samba. “Ele me introduziu praticamente à totalidade do elenco do filme, colaborou nas leituras de roteiro, corrigiu as heresias e nos indicou as sutilezas do universo do samba”, afirma. O compositor apresentou Van Steen à nata do samba carioca, que, segundo diz, os acolheu com intermináveis gestos de generosidade e compreensão das dificuldades.
Quem também mereceu elogios do diretor foi Rafael Raposo, ator que vive Noel no filme. “O Rafael é extremamente capaz, concentradíssimo, cheio de recursos. Seus atributos aliados à técnica do Christian Duurvoort, preparador de atores, renderam uma barbaridade”, diz. Para o diretor, a fragilidade do protagonista serviu de contraponto para o fato de ele não ser tão baixinho quanto o Noel. O cineasta acredita que o Noel real fosse talvez um cara mais determinado e seco, mais maduro. Mas ele lembra o crítico e professor Jean-Claude Bernardet ao dizer que a realidade não é cinema, não adianta ficar copiando. O Noel do filme é fruto de cinco interpretações sobre o poeta: as do biógrafo, do roteirista, do ator, do preparador e do diretor.
Noel – Poeta da Vila traz o roqueiro Supla no papel de Mário Lago. Para Van Steen, Supla era a pessoa ideal para o papel por ter uma postura muito semelhante à de Lago: engajado, que anda por vários tipos de ambiente, batalhador ativo, elegante, educado e charmoso. “Isso sem mencionar a semelhança física. Combina perfeitamente”, declara. Dedicando-se hoje integralmente ao cinema, o diretor diz ter quatro projetos germinando, todos filmes de época. “Estou interessado nos períodos do descobrimento, da virada do século 19 para o 20, dos anos 1950 e dos anos 1970”, afirma. Apesar de ainda não confirmar oficialmente, revela que seu próximo filme, por enquanto, é a adaptação de um livro escrito por Edla van Steen, sua mãe, chamado Madrugada. A história gira em torno de um assalto em um velório no cemitério do Araçá, em 1970, onde há cinco caixões sendo velados. Na definição do cineasta, trata-se de “um mergulho na excentricidade do basfond da rua Rego Freitas (centro de São Paulo), no tédio burguês dos mecenas do Teatro Municipal, na pureza de espírito dos artistas de circo e na vida complicada dos mendigos que vivem em sepulturas ‘desocupadas’.”
Escrito por Mostra às 14h34
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Diego Quemada-Diez, Jeremy Hamers, tradutor, Serginho Groisman, Katia Lund e Evaldo Mocarzel
INDEPENDENTE DO RÓTULO SOCIAL, CINEMA PRECISA DE BONS FILMESAo debater A Urgência do Cinema Social na quarta-feira, dia 01º de novembro, no Clube da Mostra, os diretores Diego Quemada-Diez (Eu Quero Ser Piloto), Jeremy Hamers (A Verdade do Gato), Katia Lund (Crianças Invisíveis e Cidade de Deus) e Evaldo Mocarzel (À Margem do Concreto e NavegarAmazônia) demonstraram uma certa insatisfação com o documentário.
Diego Quemada-Diez disse que não acredita em documentário, porque sempre há uma interferência, uma certa dramatização para enfatizar a situação documentada. Mas, ao mesmo tempo, ele o considera pela observação da realidade. Kátia Lund também disse não acreditar no gênero, apesar de adorar a estética. É preciso que o diretor tenha cada vez menos controle da situação filmada, porque senão torna-se ficção. A diretora ressalta que até mesmo um debate é visto de diversas formas, cada um dos espectadores o enxerga a seu modo, interpreta segundo seus padrões.
Evaldo Mocarzel ressalta que, na frente da câmera, as pessoas assumem uma postura diferente, se artificializam, desempenham um papel. Por isso, aponta as câmeras digitais como facilitadoras, pois permitem que os próprios personagens as usem para contar suas histórias. Ele considera ainda que o documentário pertence mais ao tema que está sendo desenvolvido do que ao realizador. Mocarzel define o documentário como “ficção de representação do real, que não se perde pelo compromisso ético do realizador”. Hamers disse que, ao realizar seu filme, percebeu que, no início, os cortadores de cana só falavam de aspectos positivos, tentando enfeitar a realidade. Depois, aos poucos, começaram a relatar a verdadeira situação que viviam.
Quemada-Diez, que em seu curta-metragem acompanha um menino órfão que vive numa favela do Quênia, África, disse que teve vontade de fazer seu filme ao trabalhar como operador de câmera de O Jardineiro Fiel, realizado naquele país e dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Começou a entrevistar crianças e percebeu suas carências, sentindo que precisava fazer algo por elas. Seu curta denuncia a situação, e o personagem principal não é importante apenas como indivíduo, mas também pelo que representa. Hamers conta que Tião, o personagem principal de A Verdade do Gato, faleceu antes do início das filmagens, mas que seus companheiros resgataram cartas que ele, analfabeto, ditara a alguém para enviar à mulher. São essas cartas que constróem a narrativa da história.
À Margem do Concreto nasceu, conta Mocarzel, porque os sem-teto e os catadores de papel não aceitaram participar do documentário anterior do cineasta, À Margem da Imagem. Eles não se consideram moradores de rua, tema do filme anterior, mas sim integrantes de movimentos organizados e, por isso, o diretor fez outro filme abordando as ocupações no centro da capital paulista. Diz ainda que seu objetivo era a contra-reportagem, para que os sem-teto se defendessem das acusações que a mídia em geral faz contra eles, tratando-os com preconceito e como invasores.
Independente do rótulo social, houve concordância de que é preciso fazer bons filmes, que fiquem na cabeça do espectador. Para isso, diz Kátia, é preciso seduzi-lo. Quemada-Diez acrescenta que, vivendo num mundo icônico como o atual, o filme deve ter imagens fortes e poderosas, que se fixem na mente do espectador. Mocarzel considera que cinema é manipulação e linguagem, mas é preciso haver ética em relação às pessoas. Hamers também concorda que a miséria deve ser mostrada, mas é preciso respeitar limites, sem recorrer ao sensacionalismo.
Escrito por Mostra às 15h52
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Lauro Escorel, Ewa Wawelberg, Rubens Ewald Filho e Maria de Andrade
A IMPORTÂNCIA DA RESTAURAÇÃO DE FILMES É TEMA DE ENCONTRO NO CLUBE DA MOSTRASegundo Ewa Wawelberg, a tecnologia aplicada no projeto de restauração dos filmes de Joaquim Pedro de Andrade foi feita com equipamentos de última geração. Foram três anos de atividade incessante, que ocupou quarenta profissionais que se revezaram em três turnos 24 horas por dia. Wawelberg explicou que o processo começa com a digitalização total do filme, que depois é recuperado meticulosamente quadro a quadro. O método ajuda a recuperar cores e a eliminar defeitos causados pela deterioração da película. “Somente com esse processo a gente pôde eliminar riscos e marcas de deterioração causadas por fungos”, revela Maria de Andrade. Para Lauro Escorel, a recuperação digital é de suma importância para a preservação do patrimônio cultural do país. “A situação é dramática. Por mais que a Cinemateca se esforce, há muito filme maltratado. O bom do processo digital é que consegue se restaurar um filme mesmo em avançado estado de deterioração”, diz.
Outro ponto discutido no encontro foi a questão ética envolvida no processo de restauração de um filme. A grande pergunta é: até onde se pode alterar a obra original? No caso da recuperação dos filmes de Joaquim Pedro, sempre que possível os diretores de fotografia foram chamados para participar do processo. Assim que surgisse um impasse, promovia-se um debate e tomava-se a decisão de forma democrática. “É uma questão bem complicada, porque há quem ache que não se deve sequer encostar a mão no fotograma”, afirma Escorel.
A 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo encampou a difusão do Projeto de Restauração Digital dos Filmes de Joaquim Pedro de Andrade, realizado pela Filmes do Serro, pela Cinemateca Brasileira e pela TeleImage, com patrocínio da Petrobras e envolvendo os Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Foi a primeira vez que se conduziu o restauro digital em alta definição de uma filmografia completa. O destaque da retrospectiva é o relançamento do clássico Macunaíma, que por sua importância histórica foi escolhido como o filme de encerramento dessa edição da Mostra. A versão restaurada de Macunaíma volta às telas do país nesta sexta-feira, dia 03 de novembro, e, logo em seguida, ganha uma versão em DVD
Escrito por Mostra às 15h50
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Kiko Goifman, Caio Cavechini e Decio Matos Jr.
DOCUMENTARISTAS RESSALTAM A IMPORTÂNCIA DA MOSTRAKiko Goifman: Documentário Solto das Amarras
Presente na 30ª Mostra com o documentário Atos dos Homens, o diretor e roteirista Kiko Goifman, antropólogo por formação, diz que talvez seja este o motivo que desperta seu interesse por grupos sociais urbanos e pela realização de documentários. Sua paixão por esse gênero cinematográfico o levou a assistir a palestras de importantes documentaristas, como Frederick Wiseman, Jean Rouch e Robert Drew. Cada um, ao seu modo, levou-o a pensar e a produzir documentários. Segundo o cineasta, o gênero vive atualmente um momento de liberdade, solto das amarras do didatismo e do campo das certezas. É essa liberdade que faz surgir propostas mais sedutoras. A contribuição do documentário no complexo cenário mundial e nas relações sociais é a possibilidade de aprofundar os assuntos, contrapondo-se ao jornalismo cada vez com maior pressa. No mundo veloz, o documentarista pode, por exemplo, passar um ano acompanhando uma criança no Oriente Médio. O resultado será um ponto de vista diferente daquele que diariamente relata, em poucos segundos, informações de um determinado conflito.
Goifman ressalta ainda que as pessoas parecem ávidas pelo real, seja na TV (reality shows, histórias de vida), na internet (blog, fotologs) ou no cinema (filmes baseados em fatos reais). É nessa “esfera do real” (citada pelo crítico de cinema Jean-Claude Bernardet e pelo videoartista Lucas Bambozzi) que reside o espaço para o documentário. Mas o cineasta não gosta do termo “boom” para definir a grande quantidade de documentários realizados, pois não acredita que seja um movimento efêmero. O fato é que o documentário está perdendo a terrível aura de chatice, o que facilita um pouco a vida dos diretores. Goifman acrescenta, porém, que fazer cinema independente e de autor é difícil e não apenas no Brasil.
Pertencente à nova geração de cineastas, Goifman também considera que a participação em festivais nacionais e internacionais é o melhor caminho para aqueles que se iniciam na área. Além da legitimação, os festivais permitem saudáveis parcerias internacionais, diz o documentarista. Ele revela ainda que vários filmes que viu na Mostra Internacional de Cinema marcaram sua vida e o influenciaram como realizador. Goifman lamenta apenas o desconhecimento do grande público em relação aos bons resultados que os filmes brasileiros têm obtido nos festivais internacionais, especialmente os europeus.
A resposta do público brasileiro aos novos cineastas tem sido boa, na opinião de Goifman. Mas ele considera que a distribuição dos filmes ainda é problemática. Ressalta, porém, que se está caminhando num sentido interessante, relacionado ao “tamanho” específico de cada filme, pois cada um tem seu público, que pode não ser de centenas de milhares de pessoas. O próximo projeto de Goifman é um filme de ficção chamado FilmeFobia, cujo roteiro escreveu em parceria com Hilton Lacerda (na seleção da 30ª Mostra com Cartola, dirigido em parceria com Lírio Ferreira, e autor dos roteiros de Baile Perfumado, Amarelo Manga e Árido Movie), que será mais uma co-produção internacional, envolvendo Portugal e o produtor Paulo Branco.
Escrito por Mostra às 15h48
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Caio Cavechini: O Prazeroso Contato com o Público
Um dos mais jovens participantes da 30ª Mostra, Caio Cavechini, 23 anos, integra a seleção com o documentário Antes, Um Dia e Depois, do qual é responsável pela direção, roteiro, fotografia, montagem e produção. Ele explica que em projetos pessoais o realizador é um “faz-tudo”, que deixa sua marca em todas as etapas. No seu caso, ele não tinha orçamento, queria muito fazer o filme e então teve que assumir todas essas responsabilidades. A conseqüência natural, que ele descobriu ao longo das gravações, foi deixar o trabalho com um forte traço autoral. E ele não acredita que cinema no Brasil seja ou tenha que ser assim tão difícil. Caio considera importante o trabalho em equipe, a troca de experiências e o incentivo à formação técnica de profissionais para que estes reflitam sobre o país por meio de histórias bem contadas. Incentivo para Caio quer dizer também estímulo para que o mercado seja ativo e reciclável. Sua avaliação é mais de espectador entusiasmado com a produção cinematográfica nacional, pois, como novato na área, ele ainda não pode fazer uma avaliação do todo.
Caio revela-se um admirador da Mostra e diz que, nos dois anos anteriores, assistiu a muita coisa, de filmes que se tornaram grandes sucessos a outros, igualmente fascinantes, mas mais restritos tanto em orçamento quanto em distribuição. É um ambiente de diversidade de produções no qual ele agora se sente muito honrado em contribuir. O jovem documentarista diz que seu trabalho também tem essa cara de diversidade e ele está tendo retorno ao manter contato com o público. Na Mostra, os diretores apresentam seus filmes antes da exibição e podem debatê-lo ao final. Caio, que tem explorado essa experiência, diz que dialogar com diferentes públicos tem sido ótimo, pois cada um comenta algo diverso, gosta mais de uma das histórias do que de outra. Ele considera essa experiência fabulosa. Só lamenta o pouco tempo de contato, pois muitos espectadores estão de passagem, correndo para pegar outra sessão. “É meio um furacão que passa e ajuda a compreender o que você ficou tanto tempo produzindo”, considera.
Caio está tendo oportunidade também de conviver com cineastas veteranos, a quem ele gosta muito de ouvir, porque “ajuda a sair da história e a mergulhar na forma em que ela foi construída”. E revela mais uma descoberta: o impacto causado pela vinheta da Mostra. Quando ela rola no início da sessão, parece simbolizar uma infinidade de filmes extraordinários e ao mesmo tempo um evento que mobiliza a cidade. “Para mim, é uma felicidade muito grande me sentir parte disso”, reitera. Atualmente integrando a equipe do quadro Profissão: Repórter, da rede Globo de Televisão, Caio quer se aprimorar como jornalista e acha que a produção de documentários faz parte do processo. Mas não nega que, diante da fantástica experiência de levar um documentário ao público e sentir sua reação, sente vontade de fazer outros trabalhos em futuras Mostras. Já tem algumas idéias em mente, mas elas ainda “carecem de maturação”. Já em relação à ficção, ele diz que continuará sendo um entusiasmado espectador
Escrito por Mostra às 15h48
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Decio Matos Jr.: Festivais são Vitrines para Jovens Cineastas
Para Decio Matos Jr., que participa da 30ª Mostra com o documentário Fabricando Tom Zé, os festivais são uma ótima vitrine para o trabalho de jovens cineastas, e ele recomenda a todos que inscrevam seus filmes, pois há resultados imediatos. Décio revela que as participações de seu filme na Mostra e no Festival do Rio proporcionaram bons contatos nacionais e internacionais, com negociações em andamento para representação internacional e para distribuição no Brasil. O jovem cineasta explica que seu interesse por Tom Zé surgiu quando ele rodava o documentário Bossa no Exílio, sobre músicos que fizeram sucesso ou eram reconhecidos no exterior, como Eumir Deodato, Léo Gandelman e Mauro Refosco (percussionista que toca com David Byrne). Ocorre que, nos anos 1990, Byrne foi responsável pela redescoberta de Tom Zé, e Decio Jr. resolveu incluí-lo no projeto. Ajudado por Kid Vinil, que, à época, trabalhava na gravadora Trama, iniciou suas conversas com Tom. O músico roubou as atenções, e Decio Jr. percebeu que ele merecia um documentário só dele.
Além de Bossa no Exílio, o cineasta também realizou o documentário Raíces, sobre uma cantora brasileira que retorna a Cuba para gravar um disco e buscar suas raízes. O envolvimento com música teve origem com seu pai, que trabalha em rádio. Decio Jr. ressalta ainda que sempre gostou de música e que tem nela um de seus grandes prazeres. Seus amigos são músicos. Para ele, então, unir cinema e música é unir o útil ao agradável. Considera que a música é um dos cartões postais da cultura brasileira, e o cinema é um meio de apresentá-la a outras pessoas e culturas.
Embora declare paixão pela ficção, Decio Jr. lembra que, ao se formar (estudou Cinema na Universidade de Nova York e Direção de Fotografia na Academia de Cinema de Praga), sentiu-se mais confortável fazendo documentários. Fabricando Tom Zé é um projeto que tomou quatro anos, da idéia à cópia final, e nesse período os documentários tiveram um “boom” mundial, principalmente pela repercussão dos filmes realizados por Michael Moore (Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro). Decio Jr. acredita que teve sorte desse movimento ter ocorrido ao longo da realização de seu filme, mas considera o documentário em si uma grande expressão do cinema.
A demora em realizar seu projeto se deu por diversos fatores, entre eles a dificuldade de patrocínio que atinge todo cineasta brasileiro. O segundo fator foi conciliar a agenda de Tom Zé com as filmagens. A turnê realizada pelo músico na Europa, em 2005, deu o fio condutor do documentário e foi uma oportunidade. Decio Jr. também discutiu com Tom Zé, pois este não queria entrevistas com Gilberto Gil e Caetano Veloso, seus companheiros de Tropicália. Mas o diretor afirmou que considerava seus depoimentos essenciais ao filme. Eles estão lá, pois Decio Jr. ponderou que, da mesma forma que respeitava Tom como músico, este deveria respeitá-lo como documentarista. Entre seus novos trabalhos, ele desenvolve um documentário sobre desmatamento no Brasil, mas considera que seu próximo desafio será mesmo dirigir um longa de ficção.
Escrito por Mostra às 15h48
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Laurence Lamers, tradutor, Rubens Ewald Filho e Julia Loktev
DIRETORES PREFEREM VIOLÊNCIA SEM GLAMOURJulia Loktev, que em Dia Noite, Dia Noite narra a história de uma mulher-bomba no Times Square, em Nova York, diz que existe uma diferença entre mostrar e ilustrar a violência na tela. É possível fazê-lo com sutileza, insinuando, sem apelar para cenas violentas ou com sangue jorrando. Em seu filme, ela revela que o simples ato de cortar as unhas pode denotar muito mais violência do que órgãos sendo extirpados. Laurence Lamers, cujo Paid, protagonizado pelo brasileiro Murilo Benício, gira em torno de um assassino de aluguel, pontua que em suas histórias a violência não é glamurizada, ela ocorre como na vida real.
Julia é radical, não gosta de meio termo: ou a violência é total ou apenas insinuada. Ela não gosta da violência estilizada usada pelo cinema norte-americano, tipo Matrix, que diz odiar. As cenas são mais coreográficas do que violentas, parecem um balé. Além disso, Julia acha que os filmes de Hollywood não são suficientemente violentos por não mostrarem as implicações causadas pela violência. Lamers concorda e aponta Elefante, de Gus van Sant, como um filme violento que o tocou, porque mostra como a violência ocorreu na realidade. A diretora e roteirista revela que a idéia de seu filme começou com uma notícia de jornal, sobre uma mulher que perambulava pelas ruas de Moscou e, ao ser detida, descobriu-se que ela possuía uma bomba presa ao corpo. Esse fato, diz Julia, faz pensar sobre a violência. Não é possível determinar, pela aparência das pessoas, se elas são violentas ou não. A violência psicológica é a que mais lhe atrai, afirma. Já Lamers considera que as emoções é que provocam violência, se a pessoa controla seus ciúmes, por exemplo, ela também controla sua violência.
Julia, que mora em Nova York, diz que em 11 de setembro de 2001, quando dos ataques terroristas às torres do World Trade Center, ela assistiu tudo da janela de sua casa, do outro lado da ponte (Brooklin). Gravou tudo, mas assistiu às cenas apenas uma vez. O que mais a impressionou foi o intervalo entre as quedas das duas torres, porque, nesse período de tempo, ela filmou o céu azul, o barulho dos pássaros e o imobilismo das pessoas frente ao ocorrido. Mas nenhum noticiário mostrou esse imobilismo. Ela sente dificuldade em tocar no assunto e diz ter sido a primeira vez que falou sobre sua filmagem. Lamers argumenta que os ataques terroristas não influenciaram seu trabalho porque ele sempre achou o ser humano cruel e violento, um animal capaz de qualquer coisa. Diz que nunca viveu algo parecido como a experiência de Julia e que, meses depois do ocorrido, estava em Canoa Quebrada, no nordeste do Brasil (ele é casado com uma brasileira), onde conversou com os moradores locais sobre o assunto. Percebeu que para eles aquilo não havia tido nenhum significado. Considera que é muito difícil compartilhar esse sentimento, pois a violência não causa o mesmo impacto em todos.
Escrito por Mostra às 15h47
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Jorge Durán, Odorico Mendes e Fabiano Maciel
A PERSEVERANÇA GERA FRUTOSJorge Durán: Duas Décadas na Espera
Passaram-se vinte anos desde o lançamento de A Cor do Seu Destino, primeira incursão do consagrado roteirista Jorge Durán na direção. Duas décadas depois, ele retorna às telas com Proibido Proibir e revela ao Jornal da Mostra por que levou tanto tempo para voltar a filmar. Ele disse que durante esse tempo escreveu roteiros e deu aulas, oficinas e consultorias, aqui e fora do Brasil. Segundo Durán, vontade de filmar não faltou, mas vários de seus projetos não saíram do papel. “Eu tinha um contrato com a Embrafilme para rodar um longa em 1991. Mas a Embrafilme foi fechada e a produção parou completamente.” O diretor escreveu roteiros no Chile entre 1992 e 94 e, paralelamente, correu atrás de um projeto que seria rodado tanto no Rio de Janeiro (uma parte pequena) quanto no deserto de Atacama. Ele investiu todos os seus recursos nesse projeto, uma idéia original sua para um filme de baixo orçamento. Conseguiu apoio no Rio (com a Sky Light) e uma co-produção com a Alemanha, mas não conseguiu a parte chilena da produção. “Em 1995, já havia estabilizado minha situação no Rio quando percebi que não ia conseguir fazer o filme”, revela.
As tentativas não pararam por aí. Em 1998, Durán escreveu um roteiro para rodar em São Paulo. Ganhou no ano seguinte um prêmio de melhor roteiro num concurso do MinC (Ministério da Cultura). Um produtor do Rio interessou-se e procurou levantar dinheiro para o projeto durante três anos, mas ninguém se interessou em participar. “Não se interessaram aqui. Já na França, me deram uma ajuda para a produção”, completou. O roteiro foi selecionado para o Cinemart, o mercado de projetos paralelo ao Festival de Roterdã, e para o mercado de projetos de Mannheim (Alemanha). O produtor, no entanto, desistiu, já que o roteiro não despertava interesse no próprio país. Em 2004, uma nova tentativa: “Apresentei um projeto para concursos, um filme a ser rodado no deserto de Atacama, no Chile (onde tenho minha casa), com elenco e profissionais brasileiros e chilenos, mas também não consegui recursos.”
No fim de 2003, Durán ganhou um concurso para projetos de baixo orçamento com Proibido Proibir. Ao longo de 2004, reescreveu o roteiro com a colaboração de colegas roteiristas. O filme foi rodado em 2005 e ficou pronto somente em 2006. Por ter ganhado o prêmio Cine en Construcción no Festival de San Sebastián, em setembro de 2005, que consiste na finalização do filme na Espanha, ele precisou esperar os laboratórios do país até fevereiro de 2006, quando então abriram espaço para seu longa. “Não foi por falta de projetos que não filmei. Foi por falta de recursos”, desabafa. Ano passado, a Petrobras e a Telemar selecionaram Gabriel, à Sombra do Edifício nos concursos de patrocínio. O diretor espera rodar o filme em 2007.
Proibido Proibir gira em torno de um grupo de jovens universitários que se defronta com dilemas éticos e morais decorrentes de um triângulo amoroso. Durán diz ter escolhido personagens jovens porque sempre rejeitou o clichê de que eles não têm interesse por nada, que são apáticos. “Para mim, o jovem é essencialmente um ser em transformação. Observando-os, posso imaginar, ou tentar entender, para onde caminha o país”, conclui.
Escrito por Mostra às 15h45
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Odorico Mendes: Literatura na Tela
O Dono do Mar, longa-metragem dirigido por Odorico Mendes e que integra a seleção da 30ª Mostra, é baseado no romance homônimo do ex-presidente José Sarney. Odorico diz que achou a história muito boa, o livro recebeu inúmeros prêmios e ele teve contato com o autor quando este foi homenageado na Universidade de Sorbonne, em Paris. Paralelamente, o antropólogo Claude Levi-Strauss escreveu um artigo muito positivo sobre livro e autor. Esses fatores o conduziram à adaptação, diz Mendes. Claro que transformar um livro em filme tem suas dificuldades. O diretor diz que a maior delas é o tempo do filme, pois há uma duração definida e, às vezes, ótimas cenas fogem ao roteiro e não podem ser usadas. Mendes também enfrentou falta de verbas e problemas com efeitos especiais que a história exige. É por isto que, da idéia à conclusão do filme, passaram-se quase seis anos.
Ele é filho do músico Gilberto Mendes, que foi objeto do documentário A Odisséia Musical de Gilberto Mendes (exibido na 29ª Mostra), do qual Odorico assinou a fotografia. O Dono do Mar contou com a música de Gilberto. O diretor explica que o músico vê o filme pronto, inspira-se nas imagens e recebe uma espécie de encomenda, uma sinalização de que tipo de música o diretor espera em cada cena. Foi assim que se desenvolveu a parceria entre pai e filho.
O Dono do Mar já tem acertado seu lançamento comercial. Distribuído pela Pandora Filmes, ele será lançado no próximo dia 24 de novembro. Mas Mendes já desenvolve outros projetos. Um deles é Wink, longa-metragem com início de filmagem previsto para a primeira semana depois do Carnaval. Uma co-produção Brasil/Estados Unidos com roteiro de James Aubrey, o filme terá um elenco híbrido, composto por atores brasileiros e norte-americanos. Entre eles, Grainger Hines (de CSI Miami), já contratado, e os brasileiros Luciana Gimenez e Dado Dolabella, que estão lendo o roteiro e podem vir a integrar o elenco.
Outro projeto de Mendes é o filme brasileiro A Padroeira, que será feito com recursos das leis Rouanet e do Audiovisual, cuja captação teve início em 2004. As filmagens começarão em outubro de 2007, mês da padroeira (Nossa Senhora Aparecida). No elenco, estarão um ator inglês, um português e um italiano. A história é uma comédia romântica que relata o encontro casual de um repórter italiano, que vem ao Brasil para pesquisas, e uma videomaker contratada pelo jornal para registrar as entrevistas. A Padroeira tem previsão de lançamento nacional para agosto de 2008.
Escrito por Mostra às 15h45
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Fabiano Maciel: Em Defesa de Niemeyer
Oscar Niemeyer, um dos pais da arquitetura moderna brasileira – então seria fácil levantar recursos para fazer um filme sobre tamanha personalidade. Foi o que pensou o diretor Fabiano Maciel, que participa da 30ª Mostra com o documentário Oscar Niemeyer – A Vida É um Sopro. Mas quando saiu a campo, em 1998, percebeu exatamente o contrário. Passaram-se quase nove anos até que ele conseguisse concluir seu projeto. Mas a demora possibilitou que ele tivesse inúmeras conversas com Niemeyer e, a partir dessa convivência, Maciel conseguiu tirar o arquiteto de seu discurso tradicional e mostrá-lo mais à vontade, contando coisas de sua vida.
O desejo de fazer o documentário foi provocado pelo grande interesse que Maciel sempre teve por arquitetura brasileira e pela vontade de defender Niemeyer. Ele diz que lhe incomodava muito o fato de as pessoas criticarem a obra de Niemeyer dizendo que elas são bonitas, mas desconfortáveis, ou afirmando que o arquiteto está ultrapassado. O diretor considera que foi Niemeyer e sua geração de arquitetos que colocaram a arquitetura brasileira no mapa. Acrescenta que ele é uma unanimidade e possui um trabalho autoral. “Ele tem seguidores, mas não faz escola, porque jamais existirá outro igual”, explica. Maciel, que não gosta nada da mistura arquitetônica que vê hoje nas grandes cidades brasileiras, argumenta que a arquitetura atual perde sempre se comparada à obra de Niemeyer. O filme cumpre também um papel didático a respeito da arquitetura brasileira e por isso serão assinados convênios com faculdades de arquitetura e design para projeções junto a estudantes da área. O longa será distribuído nas cidades de Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre em abril de 2007, com recursos de distribuição obtidos da Petrobras.
Enquanto trabalhava neste projeto, Maciel finalizou dois outros documentários: Vaidade (2003), exibido pelo GNT, canal de TV a cabo, e Carrapateira não Tem mais Ciúme da Apollo 11 (2004), apresentado pelo Canal Brasil. O diretor já está trabalhando em dois novos projetos: Sambalanço, sobre músicos do Rio de Janeiro, e Fandango, sobre a cultura gaúcha. Mas ele também já começou a escrever o roteiro para um longa de ficção, outro desejo seu.
Escrito por Mostra às 15h45
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Jay Jonroy, tradutor, Rubens Ewald Filho e Julia Bacha
DIÁLOGO PARA RESOLVER CONFLITOSBrasileira, descendente de libaneses, Julia disse que seu interesse pelo conflito entre israelenses e palestinos surgiu quando ela foi estudar História do Oriente na Universidade de Columbia, em Nova York, em 1998. Em sua opinião, há solução para o conflito, mas as pessoas diretamente envolvidas têm que aceitar o acordo de paz e isso só ocorrerá por meio do diálogo. Os governantes sentam-se à mesa para assinar o acordo, mas se os que vivem o cotidiano do conflito não o aceitarem, este será apenas um cessar-fogo.
Jay, um curdo iraquiano, disse ter saído do Iraque ainda adolescente para estudar. Chegou a morar no Brasil, em Ipanema (Rio de Janeiro), nos anos 1980, mas foi embora devido à alta inflação. Ele reclamou da imprensa, para a qual todos os muçulmanos são iguais, mesmo quando de países diferentes. Apontou que isso não ocorre com os cristãos: franceses e alemães, por exemplo, não são confundidos por seguirem a mesma religião. Os curdos estão distribuídos por vários países árabes, não possuem uma pátria e não encontram ninguém interessado em contar sua história. Ele acrescentou ainda que os palestinos clamam por um território e são ouvidos, enquanto que os curdos sofrem o mesmo e não conseguem atrair a atenção da mídia. Julia, por sua vez, reclamou que a mídia tradicional vende apenas a violência, talvez por medo de perder mercado ao relatar atos não-violentos. Ronit Avni, co-diretora de Zona de Conflito, uma canadense israelense, por exemplo, é fundadora da Just Vision, organização que foi criada para dar visibilidade às ações de não-violência. O documentário foi realizado justamente com esse objetivo.
Jay e Julia apontaram a emissora de TV árabe Al Jazeera como um veículo dependente dos árabes, o que interfere em seu relato dos fatos. Jay relatou que seus sobrinhos, filhos de sua irmã, que é casada com um árabe, viram os ataques terroristas de 11 de setembro por aquele canal e assim acreditaram na versão dada pela emissora, a de que tudo foi uma armação de Israel e Estados Unidos para invadir o Iraque. Outro fato levantado pelos diretores foram os relatos de violação de direitos humanos em prisões como Abu Ghraib, como se elas só tivessem ocorrido agora. Jay lembrou que o local foi usado por Saddam Hussein para eliminar os curdos.
Julia considerou que a violação de direitos humanos ocorre porque o serviço de inteligência dos Estados Unidos não está devidamente organizado. “Eles são bem menos organizados contra o terrorismo do que nós pensamos”, disse a diretora e roteirista. Israel, por exemplo, tem maior controle de situações de terrorismo porque se preparou para isso. Ela acha importante a divulgação de ações de não-violência e informou que Zona de Conflito será exibido a partir de 17 de novembro nos cinemas norte-americanos, pois o público ligou para as salas requisitando essa exibição. Eles foram atendidos.
Escrito por Mostra às 15h40
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Carlos Bolado, Pablo Lobato e Gustavo Acioli
DIRETORES ENCONTRAM A POESIA EM SUAS BUSCASCarlos Bolado: Uma Viagem pela Identidade de Dois Países
Como único diretor estrangeiro e com carreira internacional a concorrer ao Prêmio Petrobras Cultural de Difusão, o mexicano Carlos Bolado declarou que realizou Só Deus Sabe como forma de relacionar a cultura de seu país-natal com a do Brasil, terra que desde cedo viveu em seu imaginário: “Quando eu ainda era adolescente, meu pai me obrigou a ler Capitães de Areia, de Jorge Amado, que acabei gostando muito. Logo depois veio Quincas Borba...” É por isto que o tema do sincretismo religioso é tão importante para conduzir a história e determinar normas de conduta de sua protagonista, Dolores de Maria (Alice Braga).
Na jornada espiritual de sua personagem, que começa no México e termina em Salvador, durante a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Bolado procura fazer um cinema de perguntas, e não de respostas. Sem querer ser messiânico, ele trabalha com a espiritualidade num sentido mais coletivo, que anuncia, por exemplo, que os vivos de hoje realizam e refletem o que os antepassados provocaram. Não é um caso de reencarnação, mas de carma legado. Neste sentido, o filme representa um verdadeiro tour de force para Alice, pois a câmera lhe acompanha o tempo todo, Dolores está sempre em cena. Num certo momento, sua personagem conhece o jornalista Damián (Diego Luna), um quase alter-ego de Bolado. Os dois personagens são órfãos e se unem nessa viagem em busca da fé e da identidade.
O cineasta ainda observa que seu filme é extremamente líquido, pois há muita água, suor, urina e fluidos sexuais. Para dar forma definida a esse conjunto, importante foi a edição, co-assinada pelo próprio Bolado, montador de formação, e por Manuela Diaz. Para ele, montar um filme com colaboração é como tocar piano a quatro mãos, definindo o sentido musical das cenas e de sua concatenação. Outro elemento vital para a obra, inevitável pela própria natureza do entrecho, é a trilha sonora. Ele contatou Otto para compor a trilha incidental, já que este conhece candomblé e lida bastante com tambores e percussão. Otto trabalhou em três faixas com a cantora mexicana Julieta Venegas, inclusive numa versão da canção “Lágrimas Negras”, de Jorge Mautner, e selecionou ainda, a pedido de Bolado, faixas de Tom Jobim, Dolores Duran, Moreno Veloso, Interpol, The Libertines e Nortec Collection. Para conferir esta salada sincrética, é preciso apenas esperar o “lançamento médio” do filme, como Bolado classificou, no dia 09 de dezembro.
Escrito por Mostra às 20h01
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Pablo Lobato: Da Poesia se Faz Cinema
Em Minas Gerais, há 853 municípios. Eliminando os que têm nomes de santo, têm origem indígena ou que terminam em polis, restaram 600. Desses, selecionou-se apenas aqueles que tinham nomes com graça, ritmo e expressividade. Ainda restaram 200. Então, Pablo Lobato e Cao Guimarães fizeram fichas com os nomes e iniciaram um jogo, com poemas, escritos e roteiros. O resultado está em Acidente, longa-metragem que partiu do nome de vinte cidades mineiras, transformando-os num poema. A intenção foi colocar na tela o casual e o cotidiano, o que se passasse à frente ou atrás da câmera, revela Lobato em entrevista ao Jornal da Mostra. Inicialmente, Cao e ele queriam contar a origem dos nomes das cidades, mas perceberam que deviam dar espaço ao traço acidental que os rondava. Cao e Pablo dirigiram, roteirizaram, fotografaram e montaram Acidente, que integra a seleção da 30ª Mostra.
Mas Acidente passará ainda por um processo de finalização, sendo transferido para 35mm e, no primeiro semestre de 2007, exibido ao ar livre nas cidades em que foi rodado, já que estas não possuem salas de cinema. Também será distribuído comercialmente em sete capitais – Belo Horizonte, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza. A expectativa é que gere debates, como tem ocorrido em todos os locais em que é apresentado. E, embora Lobato não se preocupe tanto com a resposta, ela já está acontecendo, pois, apresentado no Festival de Locarno, o filme tem recebido convites para participar de festivais de diversos países.
Depois de um trabalho tão diferenciado, fica mais difícil pensar no próximo? Lobato considera que Acidente é um marco porque foi muito forte, com o filme ele aprendeu muito, pois este lhe deu liberdade e prazer de fazer. Provocou ao mesmo tempo uma tensão aguda e relaxada, revela. Sempre há a ânsia pela resposta e pelo reconhecimento imediato, mas Lobato diz que procura deixar as coisas acontecerem normalmente. Embora seja seu primeiro longa, ele já faz cinema há dez anos. Depois de Acidente, Lobato já realizou um média-metragem de ficção, Outono, que será lançado em 09 de novembro, sendo um dos quatro filmes ganhadores de recursos do Estado de Minas Gerais.
Escrito por Mostra às 20h00
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Gustavo Acioli: Um Diretor de Poucos Atores
O carioca Gustavo Acioli é o primeiro a reconhecer que, para uma estréia em longa-metragem, foi bastante corajoso ao escolher um texto teatral inédito (ainda não encenado) para servir de base para Incuráveis. “Depois de assisti-lo pronto, achei ainda mais corajoso”, brinca. Mas ele explica que o que lhe interessou no original de Marcelo Pedreira foi o embate existencial entre os dois personagens num mesmo cenário. “Eu fugi da armadilha teatral, pois não quis fazer uma tradução coloquial do texto. Através da decupagem, procurei uma linguagem cinematográfica”, completa. O filme não teve storyboard, e Acioli contou apenas com uma maquete do quarto para estudar rigorosamente como posicionar as câmeras. Tudo tinha que ser bem pensado, apesar de muitas das melhores soluções terem saído de improvisos gerados por ele, pelo diretor de fotografia Lula Carvalho e pelo diretor de arte André Weller.
Para trabalhar, Acioli parte sempre de um dogma pessoal: “Eu vejo primeiro se dá para fazer a cena num único plano. Se não der, verifico o que posso descartar. Se ainda assim não encontro uma solução, é sinal de que preciso decupar melhor a cena.” Com Lula, filho do mestre Walter Carvalho, Acioli também cuidou da transformação do quarto, que começa na escuridão e com focos de luz definidos, para gradativamente se clarear. “Coisa rara hoje em dia, fazíamos sempre copiões (dailies) para verificar a coerência da luz”, comenta.
Quanto ao fato de trabalhar basicamente com dois atores, um de formação essencialmente teatral (Fernando Eiras) e outra bastante acostumada às câmeras de cinema (Dira Paes), o diretor diz que o filme ganhou em tridimensionalidade, pois o embate entre os dois se dá muitas vezes em subtextos e cada ator oferecia seus próprios macetes para melhor traduzir o enredo. E a economia de atores será marca também de seu segundo longa-metragem, O Jardim de Infância de Adão e Eva, uma adaptação séria do mito bíblico num roteiro 100% original, 95% sem falas e cujo terceiro personagem será Deus. Que vocação incurável para o subliminar!
Escrito por Mostra às 20h00
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Angela Prudenzi, Elisa Resegotti, tradutor, Vittorio De Seta, Álvaro Machado, Florinda Bolkan e Leon Cakoff
CINEMA POLÍTICO É TEMA DE DEBATE E LIVROCinema Político Italiano – Anos 60 e 70 oferece entrevistas inéditas com importantes nomes desse recorte cinematográfico. As pesquisadoras Prudenzi e Resegotti conseguiram depoimentos surpreendentes dos realizadores que, com empenho social e político, denunciaram as mazelas da sociedade de seu país. “O cinema feito nessa época teve um grande impacto no mundo. Basta lembrar que o filme Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita ganhou o Oscar”, diz Prudenzi. A autora revelou ainda que ela e Elisa optaram por fazer entrevistas com os diretores porque ninguém poderia explicar melhor do que eles porque fizeram esses filmes. Elisa, no entanto, lembrou que os cineastas, num primeiro momento, ficaram reticentes com a proposta. “A maioria deles achou desnecessário falar sobre essa época, porque acreditam que os filmes já falam por si só”, diz. Segundo ela, a estratégia de convencimento foi mostrar a eles a importância de resgatar esse momento, o porquê desses filmes terem sido feitos.
O diretor da Mostra, Leon Cakoff, fez questão de relembrar a visão que os brasileiros tinham desse período do cinema italiano. Segundo ele, havia um gosto amargo, um clima de expectativa, por não se saber se poderíamos ou não assistir aos filmes devido à censura. “Esses diretores eram para nós uma espécie de heróis da resistência”, revela. O jornalista Álvaro Machado, que ao lado de Cakoff foi responsável pela organização do livro, diz ter ficado impressionado com a coesão de pensamento entre as entrevistas. Para ele, esse período se configurou como um verdadeiro movimento.
O mestre Vittorio De Seta (Banditi a Orgosolo e Cartas do Saara, exibidos nesta 30ª Mostra), um dos cineastas entrevistados no livro, afirmou não ver grandes mudanças daquela época para os dias de hoje. Para ele, talvez tenha mudado apenas a ideologia, porque na época eram todos de esquerda. Para De Seta, continuam a haver dois tipos de cinema bem claramente definidos. “Existe o cinema de evasão e o cinema de engajamento civil e social. Não sou favorável a um ou a outro em especial, só acho que o cinema de engajamento merece um pouco mais de ajuda, de suporte”, observa. O diretor revelou também que não ficou vinte anos sem filmar por falta de recursos ou oportunidade. “Fiquei esse tempo sem filmar porque estava sem idéias. Quando você tem uma boa idéia para filmar, consegue fazer o filme”, afirma.
Florinda Bolkan, que atuou em diversos filmes nessa época, lembrou da peculiaridade que mais lhe chamou a atenção no período. “O cinema italiano tem essa capacidade de falar de problemas muito sérios, mas sempre com aquele humor típico”, diz. Para a atriz, outra característica do italiano é a capacidade de construir por meio da polêmica: “Os italianos conversam, debatem e brigam e assim terminam por promover um entendimento.” Florinda, cujo filme Eu Não Conhecia Tururu (2000) teve apresentação especial no sábado, aproveitou para revelar que em breve deve começar a filmar seu segundo longa. Ela não revelou detalhes, mas garantiu que o filme será filmado no Ceará: “A gente sempre sente amor por algum lugar, e esse lugar para mim é o Ceará.”
Escrito por Mostra às 19h59
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Flávio Tambellini, Ricardo Elias e Tata Amaral
OS JOVENS DO BRASIL, SEGUNDO TRÊS DIRETORESRicardo Elias: Carinho e Crítica com São Paulo
Depois de uma vitoriosa carreira com seu primeiro filme, De Passagem (entre outros prêmios, vencedor do Festival de Gramado e melhor filme segundo o público da 27ª Mostra), Ricardo Elias apresenta agora Os 12 Trabalhos, seu segundo longa-metragem, já carimbado por uma premiação no Festival de San Sebastián, na Espanha. Qual é o peso de tantas vitórias para um diretor estreante? Elias revela que iniciou Os 12 Trabalhos imediatamente após finalizar o primeiro filme, de forma que os prêmios não chegaram a interferir. Destaca, porém, que gostava muito de algumas coisas em De Passagem, mas não quis repeti-las. Tematicamente, os filmes se aproximam, continua o diretor, mas, esteticamente, Os 12 Trabalhos é conscientemente mais elaborado, já que no primeiro ele buscou apenas o essencial.
Paulistano, Elias tem sempre São Paulo presente em sua obra. Em Os 12 Trabalhos, a grande metrópole é muito vista mais uma vez. Ele explica que isso não é uma tentativa de encontrar soluções para a cidade, mas sim de fazer um retrato dela. Afinal, o diretor a vê de um outro jeito, embora as cenas cotidianas estejam presentes. O que ele quer é fazer uma reflexão sobre as pessoas, sobre o jovem das classes C e D. Elias diz que o cinema brasileiro é produzido por pessoas oriundas de classes mais abastadas e torna-se assim um dilema retratar os mais pobres. Ele não se furta a esse dilema, mas também não quer mostrar apenas a criminalidade, os acidentes e as dificuldades das classes menos abastadas, pois isso seria muito fácil. O diretor quer mostrar também o outro lado. Sem tomar partido, considera que os seus filmes têm, ao mesmo tempo, uma relação carinhosa e crítica com a cidade.
Em Os 12 Trabalhos, o protagonista se chama Héracles (Hércules, o semi-deus grego), porque Elias fez uma leitura livre do mito com a proposta de ironizar a realidade opressora do personagem. Ele é motoboy, recém-saído da Febem e, para mudar de vida, terá de fazer um esforço hercúleo. O filme, adquirido pela distribuidora Imovision, deverá chegar ao circuito comercial em fevereiro ou março de 2007. Elias ainda não se definiu sobre seu próximo projeto, mas pensa, por exemplo, num documentário sobre o coreógrafo Ivaldo Bertazzo.
Escrito por Mostra às 19h58
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Tata Amaral: O Nascimento do Arquétipo Feminino
Com a exibição de Antonia, seu terceiro longa-metragem, a cineasta Tata Amaral conclui sua trilogia da mulher. Este projeto nasceu quando ela terminava de filmar Um Céu de Estrelas (1996), sua estréia no longa. O filme representou a mulher adulta, na figura da atriz Leona Cavalli. Com o trabalho posterior, Através da Janela (2000), Tata visitou o mundo da mulher idosa, no caso, Laura Cardoso. Agora, com Antonia, ela investiga o arquétipo da mulher jovem, representada não só pela personagem-título, mas pelas quatro moradoras da Vila Brasilândia, na periferia de São Paulo, que formarão o grupo de hip hop que conduz a trama. Elas são interpretadas por Leilah Moreno, Negra Li (cantora que envereda agora em carreira-solo), Cindy e Quelynah e representam o nascimento da mulher, o brotar social de jovens de princípios puros.
Ao mesmo tempo, Tata, depois de dois filmes bastante fechados entre as paredes de uma casa, volta ao espaço aberto e à urbe paulistana, revisitando temas e cenários já presentes, por exemplo, em seus curtas Poema: Cidade (1986), co-dirigido por Francisco César Filho (mediador de vários debates no Clube da Mostra), e Viver a Vida (1991). A idéia para Antonia assombrou Tata desde 1991, quando o produtor norte-americano indie Jim Stark lhe disse que ela precisava fazer um filme negro e com música. Em Viver a Vida, o protagonista é um office boy à mercê da cidade barulhenta. Já em Antonia, por mais que se registre a violência urbana, os ruídos permanecem à maior distância, exceto quando a protagonista abandona a poesia do hip hop e passa a trabalhar como perueira. Apenas então a poluição sonora se manifesta com força total. De qualquer forma, a Vila Brasilândia é apresentada como um lar íntimo, que revela a avenida Paulista ao longe, no horizonte.
Tata entrevistou seiscentas meninas com vivência no hip hop – ou seja, que soubessem cantar e rimar – para chegar às quatro por fim escaladas. Rappers costumam trabalhar com improvisos, o que para Tata foi uma habilidade dramaticamente necessária. As quatro atrizes novatas são adeptas do free style, que requer senso de humor e constante atenção a tudo que as rodeia. Como esse projeto foi gerado a partir de cerca de três anos de intensa pesquisa, Tata fica feliz ao apresentar os inúmeros “produtos derivados” da obra: além da inevitável trilha sonora e da bastante divulgada telessérie (em cinco capítulos) que a O2 produziu para a TV Globo e que estreará dia 17 de novembro, preparando terreno para a estréia do filme em janeiro, Tata também preparou um livro de contos a partir de suas pesquisas, uma vídeo-instalação chamada “Jukebox 2: Um Esboço para Antonia” e, em suas horas “vagas”, passou a colher depoimentos de diretores para publicar um livro a respeito de seus processos criativos. E ela já está de olho no futuro: além de cogitar uma continuação (ou uma segunda temporada) de Antonia, Tata pretende explorar o mundo do skate a partir do romance Bagdá, o Skatista, de Toni Brandão.
Escrito por Mostra às 19h58
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Flávio Tambellini: Vivência de Cinema
Formado em Economia e Sociologia, Flávio Tambellini tentou fugir do cinema, mas não conseguiu e seguiu a carreira do pai, o diretor e crítico de cinema Flávio Tambellini (1927/1976). Na seleção da 30ª Mostra está sendo apresentado seu segundo longa como diretor, O Passageiro – Segredos de Adulto. Seu primeiro longa-metragem, Bufo & Spallanzani, de 2001, baseava-se no livro homônimo de Rubem Fonseca e tinha personagens literários, diz Tambellini. Embora O Passageiro também seja baseado em livro a ser lançado brevemente, escrito por Cesário Mello Franco, também autor do roteiro, o diretor diz que, na verdade, interessou-se pela história do garoto que faz sua passagem para o mundo adulto quando perde o pai. A história aborda a sexualidade, a inexperiência do jovem e é também uma crônica do Rio de Janeiro, a mistura entre as favelas e a avenida Vieira Souto (onde vive a classe mais abastada, em Ipanema). Além disso, acrescenta Tambellini, “eu tenho um filho da mesma idade”.
O interesse em adaptar obras literárias advém do fato de a história já delinear um perfil dos personagens e conter a dramaturgia necessária para o desenrolar da trama. Como em seu filme anterior, Tambellini diz que gosta de mesclar no elenco jovens atores com grandes nomes do cenário nacional. Em O Passageiro, estão Giulia Gam, Antônio Calloni e Carolina Ferraz e os jovens Bernardo Marinho e Luiza Mariani. O diretor foi auxiliado por Juliana Galdino, assistente do diretor teatral Antunes Filho, na preparação de Marinho, mas ressalta que, embora ensaie, gosta muito do improviso. Tambellini detalha ainda que a direção de atores é o que ele mais gosta de fazer. Por isso, em 2007 dirigirá sua primeira peça de teatro, Some Girls (Algumas Garotas), escrita por Neil Labute, que terá em seu elenco João Miguel (de Cinema, Aspirinas e Urubus), Mariana Lima e Camila Pitanga.
Por causa de sua intensa e veterana vivência com o cinema, já que o pai também tinha envolvimento político com a área, tendo sido o fundador do Instituto Nacional de Cinema (INC), Tambellini diz que conhece bem o sofrimento dos cineastas. Por também ser produtor e por ter sido assistente de direção no início de carreira, ele afirma que ficou mais fácil lidar com as dificuldades, não desperdiçando tempo nem custos com filmagens desnecessárias. Essa vivência lhe possibilitou uma visão mais realista do cinema. Embora considere que ainda exista preconceito do público em relação ao cinema nacional, também reconhece a formação de uma nova geração de espectadores. Mas há ainda um grande entrave na conquista desse público, diz Tambellini: o gargalo da distribuição. São poucas salas de cinema e muita competição, pontua, destacando ainda que, em festivais como a 30ª Mostra, há um grande número de espectadores, mas que não prestigiam os filmes nacionais quando de seu lançamento comercial nas telas. O Passageiro – Segredos de Adulto será lançado em janeiro de 2007, pela Califórnia Filmes, com cerca de trinta cópias.
Escrito por Mostra às 19h58
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Tradutor, Bahman Ghobadi, Lauro Escorel, Jose Maria Prado, Florinda Bolkan, Leon Cakoff, Renata de Almeida, Contardo Calligaris, Jorge Sánchez, Wolfgang Becker e o tradutor
Divulgados os Filmes da Competição mais Votados pelo Público
A coordenação da 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo divulgou no sábado, dia 28, a lista dos filmes em competição mais bem votados pelo público. Esses filmes serão avaliados pelo júri internacional e concorrem ao troféu Bandeira Paulista. A cerimônia de encerramento, com a entrega dos prêmios, realizar-se-á na quinta-feira, 02 de novembro, no Auditório Ibirapuera. Os filmes mais votados, em ordem alfabética, foram:
- A Batalha de Paris (Nuit Noire), França, de Alain Tasma
- Amu, Estados Unidos/Índia, de Shonali Bose
- Anche Libero Va Bene, Itália, de Kim Rossi Stuart
- Coisas que o Sol Esconde (Hadvarim Shemehahorei Hashemesh), Israel, de Yuval Shafferman
- Go Etxebeste! (Aupa Etxebeste!), Espanha, de Asier Altuna e Telmo Esnal
- Minha Vida sem Minhas Mães (Äideistä Parhain), Finlândia, de Klaus Härö
- Noel – Poeta da Vila, Brasil, de Ricardo van Steen
- O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Brasil, de Cao Hamburger
- O Cheiro do Ralo, Brasil, de Heitor Dhalia
- O Edifício Yacoubian (Imaret Yacoubian), Egito, de Marwan Hamed
- O Violino (El Violin), México, de Francisco Vargas
- Os 12 Trabalhos, Brasil, de Ricardo Elias
- Qué Tan Lejos, Equador, de Tania Hermida
- Shortbus, Estados Unidos, John Cameron Mitchell
O júri da 30ª Mostra é formado por: o diretor, roteirista e ator iraniano Bahman Gohbadi; o psicanalista e ensaísta italiano radicado no Brasil Contardo Calligaris; a atriz e diretora brasileira radicada na Itália Florinda Bolkan; o produtor mexicano Jorge Sánchez; o produtor, curador e fotógrafo espanhol José Maria Prado; o diretor de fotografia e diretor brasileiro, nascido nos Estados Unidos, Lauro Escorel; e o diretor e roteirista alemão Wolfgang Becker.
O público continua votando em seus filmes prediletos para, ao final da 30ª Mostra, ser realizada a premiação segundo a votação popular. Estão sendo apresentados 97 filmes estrangeiros e 23 brasileiros de novos diretores. O diretor da Mostra, Leon Cakoff, ressaltou a total independência do júri para decidir sobre o vencedor. Destacou ainda que, embora possa lamentar a ausência de algum filme na lista gerada pelo voto popular, considera esse tipo de votação a melhor forma de decisão. Como a votação popular continua até o final da Mostra, é possível que surjam outros filmes vencedores, esclareceu Cakoff. Renata de Almeida, diretora de programação da Mostra, disse que sempre fica triste quando sai a lista de indicados, porque “qualquer escolha inclui uma perda”. Ela considera, porém, que neste ano a seleção tem a cara da Mostra, pela diversidade de filmes indicados, originários dos mais diversos países.
Escrito por Mostra às 14h01
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