“O Casamento de Tuya”, de Wang Quan´an

CINEMAS DA ÁSIA E ARGENTINA SEGUEM PRESTIGIADOS NA PREMIAÇÃO DA BERLINALE

Nada mais comum na história da Berlinale (nome popular do Festival de Berlim). O júri da 57ª edição disse que o melhor filme da sua seleção é um asiático – “Tu ya de hun shi/ Tuya’s Marriage/ O Casamento de Tuya”, do mongol Wang Quan’an. O cinema argentino continua prestigiado, saindo com dois prêmios para “El Otro”, de melhor ator (Julio Chavez) e Grande Prêmio do Júri. Significa que se referenda ainda um cinema minimalista e cheio maneirismos em que gestos e silêncios valem mais do que mil palavras. Os produtos ‘Made in China’, não param de conquistar também espaços do cinema independente. Mesmo que as autoridades totalitárias do país digam que censuram seus autores e pensadores.

Nem por isso o cinema verborrágico de Robert De Niro “The Good Shepherd” deixou de ser contemplado: pela contribuição artística do seu elenco estelar (Matt Dammon, Angelica Jolie, Alec Baldwin além do próprio De Niro). O prêmio contempla a vocação do festival que prestigia os independentes, mas estende o tapete vermelho para a difusão anual dos melhores de Hollywood. A homenagem teria uma intenção velada, pois De Niro construiu um corajoso filme sobre o nascimento da CIA e os equívocos desastrosos de um patriotismo cego.

O escocês David Mackenzie (“Young Adam”) foi premiado pela realmente brilhante trilha sonora de “Hallam Foe”, que traz no papel título o já crescido e competente Jamie Bell (de “Billie Elliot”). Curioso um filme ser referendado pela sua trilha sonora pop.

Como melhor diretor foi apontado o israelense Joseph Cedar com “Beaufort”, com um episódio sobre derrota e retirada de Israel de um monte conquistado em território libanês. Fala da estupidez da guerra e das relatividades de uma conquista. O cinema de Israel segue o modelo minimalista do argentino embora se fale muito sem que quase nada saia do lugar. Mais um interessante exercício de estilo, mostrando que também a escola de Amos Gitaï tem bons seguidores.

A forte e bela intérprete alemã Nina Hoss, mais do teatro que do cinema, foi a escolhida como melhor atriz pelo estranho e marcante filme “Yella”, de Christian Petzold, um pesadelo fantasmagórico que lembra os escapismos de David Lynch, mas que sugere na sua nervosa ação toda a nomenclatura de uma nova Alemanha unificada que abre grandes espaços para a corrupção corporativa. Todos, inclusive Nina Hoss, estranharam a não premiação da francesa Marion Cotillard metamorfoseada em Edith Piaf no “La Vie en Rose”.

Coerente com as suas escolhas, o júri de Berlim fechou a lista honrando a linguagem inovadora do coreano Park Chan-wook, conhecido pela desconcertante violência em seus filmes, com o prêmio Alfred Bauer (nome do fundador do festival) para “Sai bo gu ji man gwen chan a/ I’m a Cyborg but that’s Ok”. O filme se passa todo dentro de um hospício onde uma jovem anoréxica só pensa em se alimentar com descargas elétricas, seja de raios, seja de pilhas.

Evidentemente o Festival de Berlim teve muito mais. Ao longo do ano outros títulos serão destacados e chegarão aos nossos cinemas. A temporada cinematográfica está começando. Com o tempo se falará até em injustiças. Para isso todos contam com o referendo do público. Os cinéfilos com a palavra.

Mais informações em www.berlinale.de


Escrito por Mostra às 10h38
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“Brand Upon the Brain!”, de Guy Maddin

GUY MADDIN RECRIA EXPRESSIONISMO MUDO ALEMÃO

O cineasta canadense Guy Maddin criou para uma linguagem particular, uma assinatura própria, extraída do próprio passado do cinema, do fascínio dos filmes mudos, especialmente do expressionismo alemão. Para dar um brilho especial ao seu novo filme “Brand Upon the Brain!”, a seção Fórum do 57º Festival de Berlim preparou um evento especial, com projeção no palco do Deutsche Oper Berlin, a Ópera de Berlim, com a Orquestra Volkswagen (com 34 músicos), direção musical do maestro Jason Staczek, mais três sonoplastas de um estúdio de som norte-americano (Foley Artists), e a eletrizante narração da atriz e diretora italiana Isabella Rossellini.

O espetáculo era aguardado como o principal acontecimento do festival. A previsão se confirmou no último dia 15 de fevereiro com a Ópera de Berlim lotada e uma estrondosa ovação a Guy Maddin. O cineasta canadense teve retrospectiva completa de sua obra na 28ª Mostra Internacional de Cinema. “Brand Upon the Brain!” recria com paixão toda linguagem de urgência de um filme mudo expressionista, um terror sofisticado e cheio de maneirismos.

O fascínio pelo passado está também na história original do filme. Um menino que se chama Guy como o diretor, vive prisioneiro em uma ilha com um farol. É uma ilha que isola muitas outras crianças órfãs. Um pai adotivo usa as crianças em seus experimentos macabros enquanto uma mãe igualmente simbólica aterroriza as crianças com a sua extrema e completa vigilância. O encontro de dois casais de irmãos provoca o nascimento do amor, de um desejo até então desconhecido de liberdade e joga luz nesse tenebroso mundo de espectros.

Guy Maddin reinventa uma linguagem e segue único na recriação de um gênero que nos brinda com toda a atmosfera e as riquezas de expressão que explodiram com o próprio nascimento do cinema. Como se não bastassem todos os restauros de antigos filmes mudos que anualmente fazem a alegria dos cinéfilos, temos também Guy Maddin com o seu atrevido cinema que lança ainda mais luz sobre esta fascinante e assombrosa magia. Não por acaso, todos os seus personagens em “Brand Upon the Brain!” são afetados pelos enigmas do passado. Decifrá-los irá significar liberdade. Guy Maddin e seus personagens alcançam esta plenitude decodificando a rica linguagem do cinema dos pioneiros.


Escrito por Mostra às 13h09
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A IMPRENSA NORTE-AMERICANA ANALISA O FESTIVAL DE SUNDANCE

O tradicional Festival de Cinema de Sundance, dedicado à produção independente, é visto com olhos bem diferentes pelos jornais The New York Times e USA Today e pela revista Time

Encerrado no último dia 28 de janeiro, o Festival de Sundance 2007 mantém o status de um dos palcos de maior respeito e visibilidade para a produção considerada, em termos gerais, independente. Muito se discute sobre os critérios de seleção do festival, no decorrer dos anos, e também sobre o que é, hoje em dia, indie de fato. Mas a imprensa norte-americana, representada por três dos veículos mais lidos no país – os jornais diários The New York Times e USA Today e a revista semanal Time –, diverge sobre a importância do evento fundado em 1981 pelo ator e cineasta Robert Redford.

A jornalista Manohla Dargis, do New York Times, cobre o festival desde 1993, quando o evento era "pequeno e estimulante, uma bênção". Hoje, Sundance transformou-se numa marca, segundo ele. É um circo midiático que funciona, em última instância, como extensão de Hollywood. A presença cada vez maior de atores famosos e celebridades é uma via de duas mãos: o festival precisa deles para ser notícia, e eles usam Sundance para serem vistos. Dargis argumenta que não é mais a seleção de filmes ou a premiação que interessam à mídia e à opinião pública. Sundance virou a própria notícia em si. O jornalista até identifica algumas boas obras na seleção deste ano, " mas o que importa?". Sundance transformou-se, segundo ele, numa verdadeira máquina, em que os pequenos – ao contrário do princípio original do Instituto Sundance – têm dificuldades em serem notados no meio do circo todo. "Sundance is hot!"

Já o jornal USA Today, na pena do jornalista Anthony Breznican, ressalta que Sundance transformou-se no paraíso dramático das pessoas comuns, do gente como a gente. Enquanto Hollywood concentra sua atenção em "super-heróis, espiões e piratas, as ofertas de Sundance 2007 destacaram dramas extraordinários sobre o cotidiano de funcionários de restaurantes e gerentes de lojas", pontua Breznican. Ele conjectura que esta afinidade com a classe operária pode advir do fato de muitos dos realizadores presentes com suas obras terem de fato acumulado muitas vezes trabalhos para bancar o sonho de realizar um filme. Ele cita em especial dois longas: Snow Angels, de David Gordon Green, com Kate Beckinsale como uma garçonete de cidade pequena, e Grace Is Gone, de James C. Strouse, em que John Cusack interpreta um pai que viaja pelo país com as filhas para evitar dar a notícia de que a mãe militar morreu no Iraque. Breznican considera estes dois dos melhores filmes exibidos em Sundance.

E num texto ácido em sua coluna fixa The Big Picture, na revista Time, o respeitado crítico de cinema Richard Corliss já deixa sua opinião clara no próprio título da crônica: Os Filmes de Sundance Fazem Mal para Você! Considerando o festival "gordo e suave", Corliss argumenta que ele está formatado para exibir filmes "não-hollywoodianos para pessoas espertas", do tipo Pequena Miss Sunshine, o sucesso de Sundance 2006 que chegou até a corrida ao Oscar 2007 de melhor filme. Completa que o evento transformou-se numa "fazenda para as majors", no sentido de fazer brotar frutos que amanhã alimentarão o sistema. E a fórmula, segundo ele, é clara: "Os filmes de Sundance desenvolveram-se num gênero. O estilo é econômico e naturalista. O tema são as relações humanas, começando em crise e terminando em reconciliação. O foco é geralmente uma família disfuncional (não há famílias funcionais em filmes indie) que busca se reunir". Ele lamenta a previsibilidade da atual produção indie e, por conseqüência, do próprio Sundance, que passou a selecionar "apenas um tipo diferente do mesmo de sempre".



Escrito por Mostra às 11h52
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