Roy Andersson

‘YOU, THE LIVING’, DE ROY ANDERSSON, FOI O FILME MAIS PERTURBADOR DO 60º FESTIVAL DE CANNES

O cineasta sueco Roy Andersson finalmente revelou YOU, THE LIVING, o filme mais perturbador de toda a seleção do 60º Festival de Cannes. Se os seus primeiros filmes foram inspirados no neo-realismo italiano, especialmente em “Ladrões de Bicicleta/ The Bicycle Thief”, de Vittorio de Sica, YOU, THE LIVING dá asas e liberdade à sua imaginação como nos filmes surrealistas de Luis Buñuel, diz Andersson. “Especialmente nas liberdades de se sonhar em O DISCRETO CHARME DA BURGUESIA/ THE DISCREET CHARM OF THE BOURGEOISIE, em que um dos personagens diz ‘Ontem eu tive um sonho’, e então nós vemos o sonho”.

Sonhos e realidade em YOU, THE LIVING fazem o espectador ficar perplexo diante das tragicomédias da vida. Ao longo de 50 seqüências de precisão cronometradas, preferencialmente em planos-seqüência, ângulos abertos e fixos, veremos a grande comédia da vida, pois segundo o genial cineasta, o mais inovador de nossos tempos, “viver é tão complicado para cada um de nós, que o que nos salva é o senso de humor”.

Ele revela mais em seus apontamentos sobre YOU, THE LIVING. “O filme fala da natureza humana, da sua grandeza e miséria, alegria e tristeza, autoconfiança e ansiedade. Da natureza humana da qual rimos e por que choramos também. O filme é simplesmente uma comédia trágica ou uma tragédia cômica da qual somos o sujeito. Depois do neo-realismo e do cinema de absurdos, o que tento hoje é introduzir o trivialismo”.

A carreira de Roy Andersson é aquela sonhada por muitos cineastas pelo mundo. Com paciência ele conquistou os meios mais convenientes para exercer a sua mais confortável liberdade de expressão. Seu primeiro longa, A SWEDISH LOVE STORY, venceu em 1970 o Festival de Berlim. Seis anos depois, em 1976, GILIAP, seu segundo longa, foi visto na Quinzena dos Realizadores. Mas o que garantiu a sobrevida do estilo sempre desconcertante foi a publicidade, cinema de muitos recursos para poucos segundos em que se engajou ainda em 1975. Seus filminhos publicitários fizeram muito sucesso e levaram oito Leões de Ouro em Cannes. O reconhecimento e assédio de Roy Andersson permitiram-lhe a criação do Estúdio 24, na antiga estação telegráfica de Estocolmo, onde voltou a se dedicar a novos filmes de ficção com total liberdade. Vieram então os curtas SOMETHING HAPPENED (1987) e WORLD OF GLORY (1991). De fato, ele levou pacientes 32 anos para voltar a concluir um longa-metragem, que foi o aclamado SONG FROM THE SECOND FLOOR (2000). E agora, mais sete anos depois, o perturbado e arrebatador YOU, THE LIVING, seu quarto longa ao longo de 37 anos.

YOU, THE LIVING inspira-se nas tristes Elegias Romanas de Goethe, de onde Anderssen extrai a seguinte sentença: “Contente-se pois, ser vivente, em seu espaço quente e aconchegante, antes que a morte fatal venha lamber os seus pés fugitivos”. Os quadros em que seus mortos-vivos reagem tem inspirações pictóricas, de Millet, Delacroix e Van Gogh. O capricho está em puxar a quase monocromia das imagens para o verde-musgo.

Os quadros, embora estanques, acabam se interligando. Personagens, como fantasmas, aparecem em cenários fora de seus contextos. Andersson diz querer criar cenas e cenários tão intensos e refinados a ponto de passar aos espectadores o desejo de ver tudo novamente. “Meus filmes desafiam as estruturas narrativas convencionais do cinema. É o meu jeito de ser provocador”.

A antologia do cinema certamente reservará um patamar especial para várias seqüências desde novo filme de Roy Andersson. Para a mulher punk que blasfema contra o seu companheiro e o mundo que não a entende; para o trombonista que ensaia em seu apartamento para o desespero da mulher e dos vizinhos; para os bêbados solitários de um bar e do barman que toca toda noite um sino para anunciar a última rodada de bebidas; para o roqueiro e sua lua-de-mel em um vagão-casa de trem; para o vendedor de tapetes desconcertado depois da briga com a mulher. Enfim, para as tantas situações perturbadoras da tragicomédia humana. Viver parece já uma vitória diante das tantas provações que ofuscam a nossa existência. Roy Andersson esmera a arte do cinema sueco em resgatar do limbo as suas tantas almas atormentadas. CINEMA para esteta nenhum botar defeito. Cinema para cinéfilos.

Mais informações em:
www.festival-cannes.org



Escrito por Mostra às 16h14
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Guillermo Arriaga

NO MÉXICO NÃO HÁ MAIS ROTEIRISTAS...

Guillermo Arriaga declara-se um escritor de cinema e estará presente em julho na próxima edição do Flip – Festa de Literatura Internacional de Parati, no Rio de Janeiro

O roteirista Guillermo Arriaga, conhecido por sua parceria com o conterrâneo Alejandro González Iñárritu nos premiados Amores Brutos (destaque da 24ª Mostra de Cinema de São Paulo), 21 Gramas e Babel (30ª Mostra), comemorou com entusiasmo a decisão tomada pela Sociedade Geral de Escritores do México (SOGEM) de mudar o crédito de “roteirista” (guionista) para “escritor de cinema” (escritor de cine). E o termo “roteiro” (guión) altera-se para “escritura de cine”. Ele declarou ao jornal diário local El Informador: “Espero que isto dignifique a partir da semântica o trabalho de todos os escritores, que é algo que busco há muito tempo e que vai ajudar mais do que se imagina. Começa a haver uma maior atenção à arte do escritor, e isto indica que pode se conquistar ainda mais.”

Arriaga destacou ainda que essa luta pela dignidade não é uma ameaça, muito ao contrário. Prova disso ele considera ser a publicação de suas obras literárias, em especial a que deu origem ao filme El Búfalo de la Noche (de Jorge Hernandez Aldana e com Diego Luna), cuja tiragem de 15 mil exemplares esgotou-se em dois meses, e a reedição de dois mil se foi em duas horas. Este livro lhe possibilitou viagens de trabalho e divulgação a Nova York, Buenos Aires, Bogotá e a Costa Rica. No mês de julho, entre os dias 04 e 08, ele será um dos convidados da V Flip – Festa Literária Internacional de Parati, representando a renovação mexicana ao lado do escritor Ignacio Padilla.

Esta obra em específico, complementou Arriaga, já foi traduzida para o português, alemão, inglês, francês, tcheco, holandês, italiano, hebraico e sérvio, além de no momento estar sendo transposta para 14 outros idiomas. Ele afirmou que o mais emocionante para um escritor é ser traduzido, pois cada tradutor lhe chega com uma dúvida semântica diferente, denotando a cultura de cada país. “Isto me alegra, as leituras de todo o mundo”, disse. E antes de vir ao Brasil, ele entregou, entre outros trabalhos recentes, o texto de cinema para Mas Allá, que será dirigido por Lorenzo Vigas e produzido pelo próprio Arriaga. Como Arriaga mesmo pontuou, sua veia criativa está longe de se esgotar.


Escrito por Mostra às 11h59
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