Alexander Kluge

“O Cinema ainda nos surpreenderá!”

O cineasta e escritor Alexander Kluge pertence à mesma geração de nomes como Fassbinder, Herzog e Schlöndorff, mas é talvez o veterano do Novo Cinema alemão menos conhecido no mundo todo. Ele é um ferrenho defensor do cinema, como argumenta em entrevista concedida à revista conterrânea EPD Film – Das Kino-Magazin. Entre outras afirmações, ele diz que “o não-filmado critica o filmado”.


O sobrenome desde cedo anteviu sua carreira: “klug” significa “esperto”. Um de seus mestres acadêmicos, e amigo até o final da vida deste, foi o filósofo e músico Theodor Adorno (1903-69), da escola de Frankfurt. Foi ele quem lhe apresentou Fritz Lang para dar início em sua carreira cinematográfica. E, entre outros fatos relevantes, Kluge foi um dos 27 assinantes do tratado que estabeleceu, no festival de Oberhausen de 1962, o Novo Cinema alemão. Foi um de seus mentores.


Kluge, 75 anos, concedeu entrevista ao jornalista Mario Scalla para a revista mensal EPD Film – Das Kinomagazin, na qual relembra passagens de sua carreira e avalia sua visão de cinema. O cineasta apresenta uma filmografia completamente à margem do circuito comercial, com filmes críticos e inquietos que varreram largo espectro de assuntos. No início de sua carreira, realizou duas curiosas obras de ficção-científica, Willi Tobler und der Untergang der 6. Flotte (Willi Tobler e a Queda da 6ª Frota), de 1971, e Der grosse Verhau (A Grande Estacada), 1970. Destacam-se ainda Os Artistas na Cúpula do Circo: Desorientados, 1967; Die Patriotin (A Patriota), 1979; O Poder dos Sentidos, 1983; e Der Angriff der Gegenwart auf die übrige Zeit (O Ataque do Presente sobre o Resto do Tempo), 1985. Desde o final da década de 1980, dedica-se intensamente à TV.


Nesses anos, Kluge nunca deixou de exercer seu lado escritor. Com publicações que datam desde 1962, ele é autor, entre outros, de Learning Processes with a Deadly Outcome (Processos de Aprendizado com Resultados Fatais), de 1973, uma de suas várias contribuições para o gênero da ficção-científica. A entrevista com Scalla foi motivada pelo lançamento do mais novo livro do diretor, Geschichten vom Kino (Histórias do Cinema), uma coletânea de textos com relatos sobre sua obra inicial e considerações teóricas sobre o cinema dos anos 1920 e 30.


“A história do cinema ainda nos surpreenderá. Na minha mais convicta opinião, o cinema é algo que o homem carrega na cabeça desde a Idade da Pedra. Quando sua arte foi descoberta, no final do século 19, este foi apenas um reencontro. O cinema é anterior à arte do cinema.” Posto isso, Kluge afirma que ele ressurge em lugares inesperados. Ferrenho defensor do curta-metragem desde o manifesto de Oberhausen, o diretor argumenta que, assim como na natureza, “onde os pequenos animais é que sobrevivem, eu continuo acreditando no curta, é um formato sobrevivente”. Argumenta então que uma das formas mais robustas do cinema atual são os filmes de um só minuto, divulgados na internet.


Há que se considerar ainda a interatividade que Kluge extrai da própria obra. Não raro sua produção para a TV recorre a cenas de seus trabalhos anteriores. Ele acha fascinante recortar uma seqüência, concentrar-se nela, esquecer dos outros 90 minutos e tirá-la do contexto. Kluge lembrou uma aula-palestra que deu no festival de Berlim deste ano, em que comentou cenas pinçadas de sua carreira. “Isto dá um filme completamente diferente, não formado apenas de um único filme. Eu não acredito no conjunto de obra, mas sim na aplicação prática da obra, no seu uso. No uso de seqüências.”


O diretor também diz que o que lhe atrai no cinema é o não-esquematismo dos filmes, pois todas as peças se arranjam na montagem, mas não com um propósito de estilo, mas porque elas têm vontade própria e reagem como seres vivos. “Isto, eu aprendi de Godard e de Truffaut. Fritz Lang também diria isso, se conseguíssemos fazer com que ele de fato falasse!”, relembra. Para ele, o filme, a ópera do século 20, é uma arte jovem que, assim como a televisão, depende muito do acaso e da sorte. Esses são temas do prefácio de seu último livro. “Se um cineasta não se arrisca, então ele nunca fará filmes extraordinários. Ele deve poder errar”, considera.


Em seguida, Kluge teceu considerações em torno de suas duas artes de expressão: “O livro é algo extraordinário. Mas o livro não tem música, nem é jovem – e não é concebido de forma coletiva. Um filme que me deu muito prazer foi, por exemplo, Deutschland im Herbst (Alemanha no Outono), 1978, no qual toda a equipe se reuniu num único fim-de-semana. O episódio de Fassbinder estava pronto já na segunda-feira seguinte. Este é o momento em que, junto, geramos algo. Este poderia ter sido um próximo passo para o cinema de autor, com novos recursos. Afinal, a única coisa de que me arrependo é que os diretores off-Hollywood nunca atuaram de forma realmente conjunta.” E assim muita coisa deixou de ser filmada, e, segundo Kluge, “o não-filmado critica o filmado”.


Avançando em seus conceitos sobre cinema, ele relaciona o filme a um ditado popular alemão: “A utopia se torna sempre melhor, quanto mais se espera por ela”. Segundo ele, “a Terra é magicamente bela, mas com certeza não é uma canção de Schubert. Conviver com esse fato e não se tornar melancólico, esta é uma das expressões e funções do cinema”. Kluge conclui, em sintonia com seu amigo Godard, que cinema está relacionado com imagens invisíveis ou com imagens que não estão no quadro, subentendidas. “Precisamos também destruir as imagens. Mas isto só é feito com muitos espectadores.”


Para mais informações: www.kluge-alexander.de /// www.dctp.de


Escrito por Mostra às 17h05
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