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Dominiq Reding, Benjamin Reding, Piotr Szczepanski, Anna Pachnicka, tradutora, Marco Quintili e Peter Sempel
Uma Europa para chamar de sua
Podem-se ter opiniões destoantes do debate “O Cinema da União Européia” realizado na tarde de sexta-feira, dia 26, no lounge montado pela 31ª Mostra no Shopping Frei Caneca. Mas seguramente ninguém discordaria de que foi um encontro democrático. De cara, o diretor alemão Dominik Reding, que junto com seu irmão gêmeo Benjamin assina Ao Cachorro Desconhecido, pediu à platéia uma orientação sobre temas a serem discutidos – o formato atual de co-produção entre países europeus e como os filmes são financiados ou uma possível estética e temática em comum. Escolhida a primeira opção, o bate-papo encontrou seu eixo quando os convidados passaram a relatar suas diferentes experiências, seja com a prática de um trabalho multinacional, seja como ponto de vista dos prós e contras desse contexto. Participaram também da conversa o diretor alemão Peter Sempel (Flamenco Mi Vida), o produtor italiano Marco Quintili (A Valsa), além dos poloneses Anna Pachnicka e Piotr Szczepanski, respectivamente produtora e diretor de Principiantes.
O próprio Dominik deu o conceito inicial da discussão lembrando que, ao transmitir ao mundo uma idéia de um bloco homogêneo, assim como o dito cinema asiático ou mesmo o norte-americano, a produção européia perde no que tem de maior valor. “Há uma grande variedade cultural na Europa que precisa ser preservada”, defendeu. “Há sem dúvida características semelhantes entre um país e outro, mas há também diferenças que são a marca de um povo e sua arte, e o cinema pode trabalhar muito bem com esses dois pólos; não por acaso, nós diretores ficamos de olho no que outros colegas europeus estão fazendo”. Dominik citou o exemplo dos atores de diferentes línguas como uma das dificuldades em se trabalhar sob o contexto de co-produção européia: “Nesses casos, os atores precisam ser dublados e isso prejudica a atuação”.
Outro desafio enfrentado pelo cinema nascido na conjunção dos países do continente diz respeito à equipe técnica. Os convidados foram unânimes em apontar a delicada convivência profissional dos técnicos num set, que enriquece muitas vezes o trabalho, mas também cria entraves nem sempre de fácil solução. Peter fez uma colocação mais genérica em forma de pergunta para a platéia: “Será que existe um cinema que se pode qualificar genericamente como latino-americano?”.
Do seu ponto de vista de produtor, Marco Quintili preferiu apontar que no momento de se lançar um filme pouco vale estar ou não sob o guarda-chuva da Comunidade Européia. “Financiar uma produção não é tanto o problema; o difícil, cada vez mais, é colocar o filme nas telas de outros países europeus”, disse. “Não bastasse a questão do idioma, que afugenta um determinado tipo de público, ficou mais difícil trabalhar naqueles países que têm fortes leis restritivas ao cinema estrangeiro, como é o caso da França”. Ele se referiu a uma decisão francesa que obriga os exibidores a manter um percentual das salas especificamente para a produção local.
No caso da Polônia, Piotr Szczepanski explicou que os estímulos tanto estatais quanto privados para o cinema são recentes e que a relação com os países vizinhos nesse caso foi favorável para dar mais força às novas leis. “Nos últimos dois anos, o cinema polonês recebeu 50 milhões de dólares para produções a partir de benefícios tirados, por exemplo, de ingressos vendidos; desses, 1% vai para a realização de novos filmes”, lembrou. Num contexto próximo à opinião de Quintili, a produtora Anna Pachnicka apontou que o problema maior para o desenvolvimento do cinema em seu país é o embate nas salas com a hegemonia americana. Não é uma situação desconhecida para os demais interlocutores. “Isso é universal; o resultado para nós europeus é que sem assistir o cinema do outro não se conhece a realidade do vizinho”, lembrou Peter Sempel. “Exatamente o que acontece na Itália”, complementou Marco. “Os italianos não se identificam, por exemplo, com o cinema alemão; e assim vira um círculo, pois também não vão conhecer a realidade desse povo”. Benjamin Reding aproveitou e pegou a deixa: “Apenas 18% dos alemães assistem a produções locais; o resto assiste em massa aos filmes americanos”. Ele e Piotr recordaram ainda que essa cadeia complicada de distribuição e exibição vale para as cinematografias de qualquer país – é difícil assistir em seus países a produções brasileiras. Segundo eles, “Central do Brasil” e “Cidade de Deus” foram dos poucos filmes que conseguiram furar esse bloqueio.
Benjamin reconhece, no entanto, que há filmes europeus que buscam uma vocação internacional, apontada especialmente para o mercado americano, e são realizados de maneira a atender essa demanda. “É o caso de ‘A Vida dos Outros’, que foi premiadíssimo e um grande sucesso na Alemanha”, lembrou, referindo-se ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2007. Quase sempre em concordância, alguns debatedores não se apoiaram quando o tema foram as novas tecnologias e meios de difusão dos filmes. “Em breve a questão de salas para filmes europeus ou americanos estará superada, pois a internet se ocupará dessa finalidade”, disse Piotr. Opinião que foi prontamente rebatida por Peter Sempel: “Não diga uma coisa dessas; nós diretores não podemos assumir essa condição da internet como natural, temos obrigação de realizar filmes para cinemas, este é o lugar deles”.
Escrito por Mostra às 18h14
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Zé do Caixão Parte 3 – A Volta de Quem Nunca Se Foi
Quase madrugada de sexta-feira quando, numa sala escura de cinema, adentrou a temida figura que podia levar sua alma ou encarnar em seu cadáver. Mas sua presença ali foi apenas para ver Encarnação do Demônio. Assim foi a entrada de José Mojica Marins, ou melhor Zé do Caixão, na Sala 1 do Cine Bombril, na noite de quinta-feira, dia 25, após a apresentação na 31ª Mostra de dois de seus clássicos de terror, À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver.
Mojica chegou logo após a exibição dos longas para participar de um debate e assistir pela primeira vez em tela grande, juntamente com o público, ao trailer e a trechos prontos de sua mais nova obra, Encarnação do Demônio. Também estiveram presentes no debate o co-roteirista Denison Ramalho e o produtor Fabiano Gullane, que, por meio da Gullane Filmes, dividiu a produção com a Olhos de Cão, do diretor (e aqui montador) Paulo Sacramento.
Sem se dissociar do personagem que o deixou famoso também no exterior, sob a alcunha de Coffin Joe, Mojica arrancou aplausos e risadas respeitosas da platéia com seu jeito simples de abordar assuntos delicados para a maioria das pessoas, como o próprio sobrenatural. Quando questionado sobre o esgotamento do gênero terror, Mojica afirmou que enquanto existir a morte, o terror perdurará. “Para acabar com o terror, teríamos que acabar com a morte”, declarou, sob novas risadas dos fãs presentes.
Encarnação do Demônio é o último filme da trilogia dirigida por Mojica, iniciada com os dois filmes exibidos antes do debate. Quarenta anos se passaram desde então e o personagem Zé do Caixão acompanhou as mudanças do tempo. “Nossa grande preocupação foi com o que fazer com o Mojica depois de tantos filmes de terror realizados desde 1966”, contou o roteirista Denison Ramalho. “A gente não sabia qual seria a reação do público se o Zé do Caixão fosse interpretado por outra pessoa, por isso decidimos mexer no roteiro para que o personagem passasse por essa transformação de tempo, sem deixar de ser fiel ao corpo da obra e ao roteiro original”, concluiu Ramalho.
A saga de Zé do Caixão continua girando em torno de sua obsessão em conseguir gerar o filho perfeito que possa dar continuidade ao seu sangue e, para isso, ele persegue a mulher que conseguirá realizar seu plano. No rastro dessa busca, cenas de tortura, sangue e morte. Em Encarnação do Demônio, as coisas não serão diferentes. A julgar pelo trailer e pelas cenas exibidas, mesmo quem não é fã do gênero ficará tentado a conferir o desfecho da saga. A fotografia é assinada por José Roberto Eliezer ( O Cheiro do Ralo, exibido na 30ª Mostra) e a trilha por Antonio Pinto ( Central do Brasil, Cidade de Deus). Com 61 filmes no currículo como diretor e ator, Mojica contou que a maior diferença que sentiu ao retornar ao set de filmagem, depois de tanto tempo sem dirigir, não foi a evolução tecnológica. “A diferença foi na comida, no pagamento em dia dos atores, figurantes e técnicos”, disse Mojica arrancando mais risos da platéia. “Na minha época, todos eram voluntários e cada um levava seu pão com mortadela”, completou, sempre com risadas ao fundo. Impostando sua voz peculiarmente sinistra, Mojica comparou-se a Charles Chaplin e a Alfred Hitchcock como diretores que marcaram um estilo no cinema. “Ninguém supera o Zé do Caixão”, disse confundindo criador e criatura. Ao ser indagado sobre os planos para o futuro, o diretor, de 71 anos, respondeu que sente sua missão cumprida com a conclusão da trilogia. “Agora farei cinema por hobby e não por necessidade”. A conversa com o público correu solta e Mojica relembrou períodos em que sofreu perseguição da censura imposta pela ditadura militar e pela Igreja. “Nunca entendi porquê”, divertiu-se com seu séquito de seguidores. Ele também revelou como começou a gostar de terror, descreveu algumas cenas do novo filme e contou como ficou abalado com a morte do ator Jece Valadão durante as filmagens: “Ele já havia me contado que estava muito doente e disse que, se algo lhe acontecesse, não seria por causa de maldição alguma.” O filme, que foi rodado em 35mm entre novembro e dezembro de 2006, tem data de lançamento prevista para agosto de 2008. Segundo o produtor Fabiano Gullane, Encarnação do Demônio está orçado em R$ 2,5 milhões. “E já tem muita gente interessada no filme, principalmente na Europa, Canadá e Ásia”, acrescentou.
Escrito por Mostra às 18h13
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 Bruna Lombardi, Lina Chamie, Lucia Murat e Sandra Kogut
O CINEMA POR ELAS
As quatro convidadas reunidas pela 31ª Mostra na tarde de quinta-feira, dia 25, empenharam-se com louvor para discutir a presença feminina no cinema brasileiro. Mas se muitas das opiniões buscaram com esforço uma possível diferenciação entre a produção assinada por mulheres e a realizada por seus colegas homens, também ficou patente que essa abordagem atualmente já se dissipou para elas. Ou seja, segundo Lina Chamie e Sandra Kogut, diretoras em seu segunda longa-metragem, Lucia Murat, a mais experiente do grupo, e Bruna Lombardi, atriz reconhecida e roteirista de carreira recente, é mínima a polarização que se pode fazer entre os dois universos sem esbarrar em clichês, generalizações e comparações simplistas. Bruna, que assina o seu segundo roteiro em O Signo da Cidade, também com direção do marido Carlos Alberto Riccelli, foi a primeira a observar que um encontro como o que estava acontecendo, específico para debater o cinema das mulheres, já suscitava um questionamento. “É como o Dia Internacional da Mulher, eu prefiro que não exista; quero ver igualdade no cinema também”, disse.
Coube a Lucia Murat, cineasta em atividade desde os anos 80, contextualizar a epopéia recente da mulher atrás das câmeras e de certa forma justificar a conversa pelo diferencial das gerações. “Eu passei pelo processo de mudança da atividade da mulher no cinema; antes da chamada retomada do cinema nacional, a mulher inexistia; hoje ela tem uma participação efetiva de 20% além dos homens, é marcante isso”, lembrou a diretora, representada nesta edição da Mostra por Maré – Nossa História de Amor e integrante do júri oficial. Filhas diretas dessa renovação apontada por Lucia, Lina e Sandra equilibraram-se no ponto de vista autoral de suas obras para evitar uma apreciação apressada e definitiva do tema. “Eu consigo apontar uma participação importante da mulher no cinema não só brasileiro, mas latino-americano também, mas pelas opções estéticas e talento dessas profissionais, e não pelo fato de serem mulheres”, apontou Lina, presente na Mostra com A Via Láctea. O filme desenvolve-se todo no olhar de um homem em seu corpo-a-corpo com a cidade de São Paulo, numa constante busca. A diretora esclareceu que, quando se trata de realizar um filme, a exigência é igual para homem ou mulher: “Fazer cinema é um ato truculento, não há como pensar em tentar encontrar uma sensibilidade feminina quando se tem um desafio como um filme”.
Sandra Kogut foi ao sertão de Minas Gerais para filmar Mutum e apenas lá se deu conta de que era uma mulher no comando em meio a um cenário eminentemente masculino, formado por vaqueiros. “Antes de chegar lá, não havia pensado que ser mulher seria determinante na realização do filme; mas acabou sendo no sentido de que eu tive de respeitar alguns códigos locais em relação ao comportamento feminino; senão corria o risco de ser agressiva aos moradores”, lembrou. “Curioso que um dos fatores que me fez ser aceita e ganhar a amizade dos habitantes é que eu tinha acabado de ter meu filho e o levei junto para lá, amamentava no set; tenho dúvidas em afirmar isso, mas penso que o fato de o protagonista ser uma criança criou um elo especial não com o fato de ser mulher, mas com muito da minha infância que me veio à memória”.
Outro aspecto lembrado por Sandra diz respeito à convivência com uma equipe técnica na maioria formada por homens: “Essas situações podem se complicar sim, não vou negar”. E complementa: “Mas aí é questão de domínio e de imposição que um profissional de qualquer gênero de sexo tem que ter”. Lina disse nunca ter passado por tal situação, mas que presenciou problemas entre integrantes homens de sua equipe e colaboradoras, a exemplo da fotógrafa Kátia Coelho, uma das primeiras profissionais do Brasil na função. “Isso acontece quando as mulheres entram em nichos há muito dominados por homens”, lembrou Murat. No caso de seu longa, ela verificou uma situação que ela debita no fato de ser mulher antes do que uma diretora em ação: “Eu filmei na favela e aquelas crianças ali acabaram me enxergando como uma mãezona; eles tinham uma relação de respeito e medo típico de mãe e filho”.
As principais questões do debate, no entanto, circundaram uma recorrente idéia de que uma obra assinada por uma mulher, filme, roteiro ou livro, deva trazer implícito uma visão ou temática feminina. Autora de seis livros e agora roteirista, Bruna disse acreditar nessa idéia apenas em parte: “Eu sempre escrevi sob um ponto de vista feminino, faço isso com esse propósito, pois é o tema e o universo que me interessam; então claro que haverá maior delicadeza vinda de uma mulher; mas a coisa pára aí e o que segue é uma escrita sem gênero de sexo definido, é uma pessoa escrevendo”, justificou. “Ao mesmo tempo, noto como espectadora uma busca de valores muito clara nos filmes de mulheres cineastas; aí acredito numa distinção sim”.
Lina preferiu mudar o eixo do tema para a questão do universo que se explora e como a história é contada no filme: “Se eu apontasse distinções nesse caso, seria de como cada um escolhe sua maneira de narrar, e isso é resultado da cabeça diferente das pessoas e não entre homens e mulheres”. Lucia fechou o bloco apontando que o importante é a conquista de um cinema autoral, também independente dos sexos. Por fim, uma pergunta da platéia, ecoando outro debate realizado na quarta-feira, levou as profissionais a opinarem sobre a atividade da crítica – tema oficial da 31ª Mostra -- e a relação desta com seus filmes, atuais ou anteriores. Lina sintetizou a turma dizendo que a expectativa é que ela, a crítica, seja reflexiva e não agressiva.
Escrito por Mostra às 18h07
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Álvaro Machado, Inácio Araújo e Luiz Zanin Oricchio
A crítica dos críticos
Tema central da 31ª Mostra, a crítica de cinema saiu dos bastidores em que normalmente atua e em dois momentos foi à frente dos refletores na noite de quarta-feira, dia 24. O primeiro ganhou forma no livro “A Rampa”, uma coletânea de artigos do crítico francês Serge Daney (1944-1992) escritos para a revista Cahiers du Cinéma, da qual foi diretor, e lançada agora pela editora Cosac Naify. O próprio Daney selecionou os artigos escritos entre 1970 e 1982. O segundo momento foi um debate que reuniu no Clube da Mostra os críticos Inácio Araújo, da Folha de S. Paulo, e Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de São Paulo, o jornalista Álvaro Machado, responsável pela organização do livro, e o diretor da Mostra Leon Cakoff, que também atua como crítico. Pouco antes, público e convidados assistiram a um trecho de uma entrevista de Daney, captada da internet, na qual sintetiza alguns passos de sua trajetória e da atuação na revista. Ausência sentida, o crítico francês Serge Toubiana, parceiro de Daney nos Cahiers, cancelou na última hora sua vinda ao Brasil por problemas de saúde. Acabou participando por tabela, ao ter trechos de sua entrevista à revista Carta Capital comentadas durante o encontro.
Foi, aliás, o petardo lançado por Toubiana de que a crítica se defronta com uma grande crise o mote das primeiras discussões. Cakoff abriu a conversa levantando a questão da postura de alguns profissionais, que considera leviana, e de seu descaso com um determinado tipo de cinema, especialmente aquele realizado por veteranos, e a atitude simplista do “gostei” ou “não gostei”. Recorreu ao pensamento de Daney para se expressar: “Ele diz que um filme deve servir como material de construção para um pensamento crítico”. E emendou: “Eu acredito que o pior filme pode servir ao menos para se considerar o outro melhor; isso é o que nos forma, nos informa e nos faz crescer”. Zanin também se agarrou à provocação de Toubiana e a explorou numa análise em contexto histórico: “Por princípio, a crítica tem sempre que estar em crise; as palavras crise e crítica, inclusive, têm a mesma origem etimológica”, lembrou de início. “Acredito que a crise de que fala Toubiana, que é um pensamento da geração de quem tem mais de 50 anos, está ligado a um esvaziamento e à desconstrução dos cânones que moviam essa mesma geração; acabaram as utopias teóricas”.
Zanin defendeu que hoje já não há mais obras referenciais, parâmetros e crenças como havia quando esses críticos começaram: “Cinema é uma arte em evolução permanente e é natural que os parâmetros, paradigmas, as referências também mudem; quem hoje consegue realizar filmes canônicos como ‘Encouraçado Potemkin’ ou ‘Cidadão Kane’?” Ele lembrou que justamente por essa nova face da atuação crítica ficou mais difícil para o profissional consolidar uma postura autoral: “Se antes a crítica de autor seguiu em diferentes momentos fundamentos teóricos do marxismo-leninismo ou da psicanálise, por exemplo, agora a crítica está bastante mais livre de fundamentos; temos então a obrigação de nos mantermos informados e progressivamente buscar o texto autoral”.
O debate de idéias cresceu com a postura contrária de Inácio Araújo: “Eu discordo de que haja uma crise atual da crítica, realmente não consigo enxergá-la como vocês. Pelo contrário, acho que há uma fantástica geração ligada à internet. A questão é que a crítica sempre precisou se acomodar de alguma forma ao seu período, encontrar o seu espaço”, comentou o jornalista. “Estou ligado ao cinema desde 1968 e, desde então, vi a existência de um cinema popular brasileiro que tomou um susto com a chegada, por exemplo, do Rogério Sganzerla, diretor que também foi um teórico”. E prosseguiu: “Houve então uma crítica que ficou atrelada à Embrafilme. Era um período em que se esperava do crítico uma ajuda ao filme, para que ele desse certo. Isso era muito complicado na época”. Inácio lembrou que, embora os anos 80 tenham trazido maior liberdade ao profissional, também cunhou a idéia de que qualquer pessoa, numa redação, por exemplo, poderia escrever sobre cinema: “Ao mesmo tempo, o espaço para longos textos nos jornais foi minguando e as críticas viraram apêndice de reportagem de cinema, making ofs, etc”.
Outros pontos discutidos foram a credibilidade, o ato propriamente dito da elaboração de uma crítica e a habitual dúvida sobre para quem se escreve, quem é o leitor e se é preciso levá-lo em conta nesta relação. Inácio pontuou essas questões lembrando a condição um tanto delicada de um profissional que se exercita na imprensa: “A escrita jornalística é uma agressão, é um ato sem resposta”. Cakoff lembrou os recursos de alguns veículos de comunicação em criar símbolos de avaliação que têm a intenção de simplificar a vida do leitor: “Em vez de ler a crítica, ele fica nas estrelinhas, bonequinhos, cotação...”. Zanin concordou que isso atualmente é um flagelo para os críticos e faz parte de uma padronização brutal. “Um recurso desses torna-se uma indicação de consumo, e essa não é uma atribuição do crítico”, disse, “mas é difícil combater essa idéia com a inflação de imagens que temos hoje”. Inácio relativizou a questão, pois acredita que uma crítica ou uma avaliação superficial com o uso desse tipo de recurso tem pouca influência na carreira de um filme: “Não acredito que exista relação entre o valor estético e o valor comercial de um filme”.
Em quase todo o debate, lembrou-se de figuras importantes da crítica brasileira, caso de Paulo Emílio Salles Gomes, Glauber Rocha e os ainda hoje atuantes Jean-Claude Bernardet e Ismail Xavier, para se exemplificar a excelência de textos não só no aspecto crítico quanto também literário. Uma discussão gerada por esse prisma levou os convidados a comentarem sobre se a análise de um filme deve ser meramente descritiva ou estruturada na crítica. “Creio que a idéia é mesmo andar no fio da navalha, não sendo hermético, mas sim acessível ao leitor informado sem ofender ao especializado com obviedades”, apontou Zanin. “Uma crítica é um esforço de compreensão que, às vezes, é frustrado; mas o principal é não tergiversar, dizer se gosta ou não com inteireza e honestidade; de qualquer forma, o leitor em geral não concorda com o que lê”, declarou Inácio. “É sempre bom lembrar que quando se vai escrever sobre um filme, não é mais sobre o filme em si e sim sobre a sua memória dele; ou seja, passa a ser uma reconstrução do filme, do que ele significa para você”, finalizou Zanin.
Escrito por Mostra às 18h05
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A AMÉRICA LATINA NÃO ASSISTE À AMÉRICA LATINA
Sergio Umansky e Daniel Andrade
A situação da produção cinematográfica na América Latina voltou a ser tema de debate na 31ª Mostra na tarde desta quarta-feira, dia 24, no Clube da Mostra. Com a presença do mexicano Sergio Umansky, de Mejor Es Que Gabriela No Se Muera, e do equatoriano Daniel Andrade, de Esas No Son Penas, a discussão se concentrou na falta de trânsito entre os filmes do continente sul-americano e na idéia pré-concebida de um gênero de cinema latino-americano.
Logo no início do debate, Andrade critica a concentração da distribuição dos filmes produzidos na América Latina nas mãos de empresas multinacionais estrangeiras, principalmente as norte-americanas. Para a jornalista Maria do Rosário Caetano, que mediou a mesa, esse é o maior entrave para a circulação das produções latinas no continente. “O dono de uma distribuidora brasileira que queira comprar um filme da Argentina tem de ir aos Estados Unidos ou à Europa porque os filmes estão com eles”, ressaltou Caetano.
O diretor equatoriano acrescenta a essa afirmação que a língua espanhola, que poderia ser um facilitador dessa circulação, não ajuda em nada exatamente por causa das barreiras impostas pelas grandes distribuidoras. “O Equador sozinho é um mercado pequeno, mas se eu pudesse adicionar os países de língua espanhola o meu mercado em potencial seria fantástico”, afirma o diretor. “Se juntarmos o Brasil, a potencialidade desse mercado é ainda maior”, complementa Andrade.
“Quebrar essa barreira que as distribuidoras impõem é fundamental para a sobrevivência do cinema nacional”, defende Umansky. No México, a produção local tem perdido espaço para os produtos made in Hollywood. “Eu fui rechaçado por todos os estúdios porque meu filme não é comercial”, conta. O filme custou US$ 2 milhões e faz uma crítica bem humorada às telenovelas do país. “Agora talvez as coisas melhorem, porque acabou de entrar em vigor a lei de incentivo fiscal que desconta até 100% dos impostos em troca de apoio ao cinema”, anuncia o diretor.
Segundo Umansky, o México produziu 60 filmes em 2006. Conforme Maria Rosário, a participação dos filmes mexicanos na bilheteria é de apenas 8% dos ingressos, enquanto os outros 92% ficam divididos com as produções estrangeiras, a maioria norte-americana. Apesar desses números, o México é, juntamente com a Argentina e o Brasil, o maior produtor de filmes da América Latina.
No Equador a situação é mais complicada. “Somente esta semana foi encerrada a primeira convocatória de apoio do governo ao cinema de toda a história do país”, diz Andrade, que critica a falta de uma política que possa pagar todo esse sistema de produção e distribuição. Questionado se acredita na existência de pontos comuns entre os filmes latino-americanos, seja na produção, nos temas ou no jeito de fazer cinema, Andrade dispara: “Acho que esse carimbo de cinema latino-americano às vezes prejudica na distribuição.” Para ele, o mercado europeu e principalmente o norte-americano têm uma idéia equivocada e pré-concebida de quais temas o cinema latino-americano deve tratar, como fome, miséria e política revolucionária. “E quando se foge disso, eles acham que você não está fazendo cinema latino e muitas vezes fecham as portas.”
Sendo enfático ao afirmar que não acredita na existência de um gênero de cinema latino-americano, o diretor equatoriano lembra que o passado comum entre os países da América do Sul pode contribuir para a apresentação de temas semelhantes. “Mas é fundamental conservar as particulares de cada país”, finaliza.
Escrito por Mostra às 18h01
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MOSTRA VIVE NOITE MARCANTE COM APRESENTAÇÃO DE BRAND UPON THE BRAIN
Evento teve sonoplastia ao vivo e humor negro na tela Na era do cinema digital, um gênero dado como morto foi ressuscitado: o cinema mudo. Foi com essa alusão que o produtor Jamie Hook abriu o espetáculo cinematográfico Brand Upon the Brain, do diretor canadense Guy Maddin, apresentado nesta terça-feira, dia 23, no teatro Paulo Autran (SESC Pinheiros), como parte da programação da 31ª Mostra. Ainda na abertura, Hook agradeceu aos diretores da Mostra, Renata de Almeida e Leon Cakoff, por terem “assumido o grande risco de trazer o show para São Paulo”. Ao final da noite, percebeu-se que valeu a pena. Acompanhado por um trio responsável pelos efeitos sonoros, por um castrato, uma cantora e uma pequena orquestra do Centro Tom Jobim, o produtor deu início ao espetáculo, que teve como narradora convidada a jornalista, apresentadora, atriz e cantora Marília Gabriela, cuja interpretação magistral arrancou aplausos da platéia. Durante os 95 minutos da apresentação, o público permaneceu atento a todos os minuciosos detalhes do show. Na tela, a história de um pescador, que não por coincidência tem o mesmo nome do diretor, que recebe o bilhete da mãe para retornar à Black Notch, uma pequena ilha pertencente à família, e pintar o farol abandonado. Dividido em 12 capítulos, esse melodrama recheado de humor negro e cenas hilárias, que ultrapassa o realismo fantástico, arrancou risadas e aplausos do público. Ao chegar para executar a tarefa pedida pela mãe, os fantasmas do passado tomam conta de suas lembranças. Guy se vê novamente criança, cercado dos amigos órfãos que viviam no orfanato fundado pelo pai. Ele sempre estava trabalhando no laboratório, mesmo depois de voltar do mundo dos mortos. A dominadora e chantagista mãe continua vigiando todos em busca de qualquer segredo. E a doce Wendy, uma detetive ainda adolescente que chegara à ilha para investigar a misteriosa aparição de marcas nos corpos das crianças do orfanato, é por quem Guy se apaixona. Enquanto todo esse enredo se desenrolava na tela, entre uma legenda e outra, a sonoplastia entrava em ação. De uma peneira com pedras e conchas saía o som das ondas do mar quebrando na praia de Black Notch. De apitos de formatos diferentes, o cantar das aves marinhas. O estralar dos beijos dados na tela vinham na verdade dos lábios dos sonoplastas beijando o dorso da mão ou uma pequena plaqueta de borracha. O ranger da porta, um corpo queimado, os passos apressados, tudo vinha de uma porta no palco, do barulho de plástico-bolha estourado e amassado, do sapateado dos responsáveis pela fidelidade sonora do filme, que era tirada de um tanque d’água e dos mais diversos e exóticos objetos. Ao final, mistério resolvido e mais risadas fecharam a apresentação ao vivo do espetáculo, que já contou, na função aqui defendida com brilho por Marília Gabriela, com a participação de músicos como Laurie Anderson e Lou Reed, o poeta John Ashbery e as atrizes Cate Blanchett e Isabella Rossellini em performances executadas na Europa e nos Estados Unidos. Disse o produtor Jamie Hook, em comunicação com Maddin via e-mail: “Tenho o prazer de relatar um de nossos melhores shows aqui no Brasil, que correu sem falhas até uma ovação em pé do teatro lotado, cerca de 800 pessoas. Nossa narradora, a estrela da TV brasileira Marília Gabriela, estava realmente inspirada. Seu português elegante fez dessa talvez a minha narração favorita entre todas. Ela imediatamente alcançou o coração da peça e conseguiu destacar todos os temas sem nunca chamar atenção excessiva. Foi realmente espetacular.” Uma noite marcada na história da Mostra.
Marília: elogios apaixonados do produtor
Escrito por Mostra às 17h59
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Eduardo Coutinho, Roberto Mader, Rubens Ewald Filho e Evaldo Mocarzel
Linguagem, ética e maneiras para documentar o Brasil
O debate sobre o cinema documental brasileiro reuniu no início da noite de terça-feira, dia 23, no lounge do Clube da Mostra, três diretores de trajetórias, formas de realização e pensamentos distintos sobre o gênero. O resultado da conversa entre Eduardo Coutinho, Evaldo Mocarzel e Roberto Mader, mediada pelo crítico Rubens Ewald Filho, foi um instigante espelhamento entre a produção de cada um – especialmente dos títulos programados na 31ª Mostra –, mas principalmente um diálogo franco sobre questões delicadas como direito de imagem, ética e os limites do documentário. Também rondou a conversa a opção dos realizadores pelo relato não-ficcional em suas carreiras e a relativa liberdade e facilidade em viabilizá-lo. Recordista pelo número de filmes numa mesma Mostra, Mocarzel abriu a discussão lembrando que o suporte digital é o fator fundamental para a sobrevivência do documentário hoje: “Com uma fita que custa quinze reais é possível fazer um filme; só assim consigo realizar três num período tão curto de tempo; além disso, o digital é muito democrático”. Evaldo está representado pelos filmes Brigada Pára-quedista, Jardim Ângela e O Cinema dos Meus Olhos. O veterano Coutinho comparece com Jogo de Cena, enquanto Roberto Mader com Condor.
Embora a respeitável produção atual de documentários no Brasil dê crédito à idéia de Mocarzel, os demais participantes preferiram justificar por outros caminhos a viabilização de seus projetos. “O grande documentário ainda a ser feito é como o documentarista brasileiro sobrevive; eu sem o João não teria feito esse filme não”, destacou Eduardo Coutinho, referindo-se ao também documentarista João Moreira Salles, sócio da VideoFilmes, responsável pela produção em 35mm de Jogo de Cena. O filme exigiu uma estrutura razoavelmente complexa ao reunir 83 mulheres num teatro do Rio de Janeiro para colher seus depoimentos de vida. Elas chegaram ali atendendo a um anúncio público. Coutinho selecionou algumas das participações e misturou-as a interpretações das atrizes Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres.
Roberto Mader, por sua vez, lembrou que nem sempre é o suporte escolhido que determina a maior ou menor facilidade em empreender uma produção. “No meu caso, diferente do Evaldo que conseguiu realizar em um mês um trabalho como o Brigada, levei três anos para fazer Condor; depende muito do material e dos personagens com que está se lidando, e o filme exigia entrevistas difíceis com generais, por exemplo”. Condor, que será exibido em digital, diz respeito à operação homônima que batizou uma cooperação entre governos militares sul-americanos no período da ditadura, que culminou com o seqüestro, assassinato ou exílio de milhares de pessoas. “Eu contextualizo aquele momento para então trabalhar com um viés humano muito forte”, explicou Roberto.
Brigada Pára-quedista também vai à caserna, mas por outro foco: mostra como é o cotidiano dessa tropa de elite do Exército instalada na zona norte do Rio de Janeiro. Por coincidência, PQD, de Guilherme Coelho, é outro título sobre o mesmo tema presente na 31ª Mostra. Mas a diversidade de olhares entre os dois documentários, ressaltada por Evaldo, suscitou a discussão sobre os pontos de partida e objetivos ao se fazer um documentário. “O filme do Guilherme é mais social, sobre a vida daqueles jovens militares e suas famílias; o meu é um cinema de observação”, disse Evaldo. “Eu queria saber, por exemplo, qual era a reação daqueles jovens ao assistir a um filme de guerra; eles lá assistem como parte do treinamento, imagine só, Nascido para Matar, do Kubrick, um título anti-belicista por excelência, é o oposto”. Roberto quis saber então como não deixar que um filme como esse se torne um veículo de propaganda do tema representado, no caso o Exército, e não interfira na liberdade do realizador. “Antes de tudo eu não fui lá para fustigar, fui para entender; mas é justamente em situações naturais como essa de ver um filme que eu acho que há boas revelações”, respondeu Evaldo.
Mais intricado em sua proposta, Jogo de Cena foi definido por Coutinho como um filme sobre mulheres e a representação. “É um filme estruturado na idéia de que o personagem é quem mente e o ator é quem diz a verdade; são questões aparentemente contraditórias, mas que dizem respeito ao teatro da vida real e os papéis representados por todos nós no cotidiano”, descreveu. O diretor explicou que alguns dos depoimentos pareceram-lhe prejudiciais aos depoentes e que, quando isso acontece, ele suprime a cena. “Eu não quero fazer mal a ninguém com meus filmes; a pessoa pode ver uma declaração, uma cena sua daqui a alguns anos e se sentir muito mal, pode trazer à tona memórias doloridas”. E continuou: “O documentarista tem obrigação de respeitar o personagem; com figura pública, por exemplo, eu não trabalho, elas têm muito a perder”.
Coutinho citou o exemplo do trabalho do americano Frederick Wiseman, especialmente seu filme de estréia Titicut Follies, de 1967. “Eu acho esse filme pornográfico; Wiseman foi a um sanatório e filmou os internos todos nus, com planos em detalhe; quem deu autorização para mostrar essas cenas, os loucos?”. Coutinho prossegue: “Em outro filme, uma jovem presa pela polícia é humilhada duas vezes, pela própria polícia e pela câmera do diretor, da qual ela tenta se esconder; Wiseman está pouco ligando com o que acontece aos personagens; é a mesma coisa com o Michael Moore flagrando o Charlton Heston em momentos vexatórios, desagradáveis para ele; temos que lembrar que a câmera tem um poder incrível, pode transformar alguém em monstro”.
Evaldo lembrou que quando Wiseman esteve no Brasil e foi questionado sobre seu método documental, o diretor respondeu que a Constituição americana lhe assegurava a liberdade de expressão. “Ou seja”, emendou Roberto, “pode ser legal, mas seria legítimo, ético?”. O cineasta lembrou que em Condor o general Manuel Contreras, braço direito do ditador Augusto Pinochet no Chile, cobrou em dinheiro para lhe conceder entrevista. “Nem sempre o realizador pode ter a opção e o controle de todos os lados da questão num documentário”. Evaldo defendeu que por princípio um documentário não pode trabalhar com conceitos rígidos. “Jardim Ângela, por exemplo, aconteceu à mercê do acaso; eu fui convidado para dar uma oficina de cinema documentário lá e minha idéia era usar como instrumento o olhar dos alunos sobre o bairro; mas aí um deles surpreendeu e fez um trabalho com ele mesmo no centro da cena, mostrando suas cicatrizes do corpo; aí então ele virou o protagonista do meu filme, que passou a ser sobre o olhar dos outros alunos sobre aquele colega”.
Na etapa final da conversa, falou-se sobre o interesse do trio de documentaristas em realizar ficção. Roberto Mader se prepara para seu primeiro projeto ficcional, enquanto Evaldo diz que rumou para o documental para viabilizar seus projeto e a ficção por enquanto está voltada para o teatro. Coutinho, espirituoso e crítico durante todo o debate, relembrou seu passado inicial na seara com O Homem que Comprou o Mundo (1968). “Fiz ficção na época em que queria me destruir; mas aí veio o golpe de estado, que me salvou, pois aí não dava mais para fazer cinema”, disse o diretor. “Mas acho que há 30 anos eu faço ficção”.
Escrito por Mostra às 17h54
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Lusine Yeghiazarian, Eileen Thalenberg, Catherine Chahinian e Carla Garapedian
Uma tragédia relembrada pelo cinema e suas vítimas
O genocídio armênio, a maior tragédia na história desse povo comprimido entre quatro países na junção da Europa e a Ásia – a chamada Eurásia – ainda não é fato de completo domínio público, exceto em momentos em que novos lances políticos relacionados vêm à baila. Essa foi a idéia geral que motivou os quatro participantes do debate ocorrido no início da noite de segunda-feira, dia 22, no lounge do Clube da Mostra. Participaram da conversa as diretoras Eileen Thalenberg e Carla Garapedian, realizadoras respectivamente dos documentários A Longa Volta para Casa e Screamers, a professora de Língua Armênia na USP Lusine Yeghiazarian e Leon Cakoff, diretor da Mostra, que mediou o encontro também como voz ativa pela ascendência armênia.
Em pauta, a abordagem direta ou indireta nesses e em outros filmes exibidos na 31ª Mostra do extermínio perpetrado pelos turcos – e não reconhecido oficialmente por eles – entre 1915 e 1923. Nesse período de declínio do Império Otomano, eles teriam dizimado entre 1 a 1,5 milhão de armênios, dependendo da estatística escolhida. O assunto também ganhou a adesão recente dos italianos Paolo e Vittorio Taviani (A Casa das Cotovias), dos armênios Don Askarian (Ararat – 14 Visões) e Maria Saakyan (O Farol) e do francês Robert Guédiguian (Armênia).
Cakoff deu início à discussão chamando a atenção para a escolha aparentemente singela e constante da música nos filmes armênios e especialmente naqueles ali representados, tornando-se nesses casos protagonista. A Longa Volta para Casa acompanha a cantora de ópera Isabel Bayrakdarian em sua primeira viagem à Armênia, terra de seus antepassados. Screamers focaliza a popular banda de rock System of a Down em seu papel atuante de fazer valer o reconhecimento oficial do genocídio. Carla Garapedian, armênia que cresceu nos Estados Unidos, trabalhou na BBC como correspondente de guerra e se dedica ao tema de direitos humanos e genocídios, justificou que escolheu a música para apontar como é a relação hoje do jovem armênio com o assunto. “Não quis abordar o genocídio e o êxodo de forma direta, porque isso é muito difícil e pessoal de cada um de nós”, disse, referindo-se ao seu povo.
Eileen Thalenberg, de ascendência judaica e sem laços de parentesco com a Armênia, conheceu o país e se apaixonou pela cultura em geral e especificamente pela música sacra, interesse que resultou no documentário. “Fiquei fascinada como um povo que passou por aquele trauma valoriza e faz questão de manter um alto grau de cultura; não há uma noite sem um concerto para se assistir; eu tive então que abraçar essa causa”, explicou. A professora Lusine Yeghiazarian confirmou essa vocação cultural do país onde nasceu e falou da importância de abrir canais para esclarecer as novas gerações do ocorrido. E contou uma passagem: “É muito difícil atrair jovens aqui interessados em aprender o armênio na universidade; mas foi só afixarmos um cartaz para a comunidade de São Paulo sobre o System of a Down e muitos apareceram”, lembrou. “Os jovens têm que ter o olhar deles sobre o genocídio.”
O tópico que gerou maior debate foi a recente aprovação no Congresso americano, por uma margem apertada de 27 votos a favor e 21 contra, do reconhecimento oficial do extermínio e suas implicações no jogo de interesses global. “Bush não quer essa aprovação com medo de contrariar o governo turco, pois precisa do país como aliado para invadir o Iraque; por sua vez, a Turquia pressiona e nega o apoio à invasão enquanto houver chance desse reconhecimento”, lembrou Cakoff. Carla complementou explicando que desde o final do massacre há uma política constante de negação por parte da Turquia e também de posições alternantes de países europeus. Essa atitude varia da neutralidade e do não comprometimento, casos da França e da Rússia – que tomou conta do país na época do comunismo –, à hipocrisia, a exemplo, segundo ela, da Inglaterra. Lusine pontua ainda que essa posição da Turquia terá que ser revista rapidamente: “O país quer entrar na Comunidade Européia e esta já declarou que para isso o governo turco terá que aceitar o reconhecimento”.
Outra força no mesmo sentido parte de intelectuais turcos que já se expressam a favor dessa aceitação, a exemplo do prêmio Nobel de literatura Orhan Pamuk. “Eles são favoráveis pela idéia de que, para se livrar desse fardo, é melhor aceitá-lo”, disse Carla. “O problema é que na Turquia há uma lei que proíbe comentar o genocídio, caso contrário pode se sofrer um processo”. Em alguns casos, como lembra a diretora, a perseguição vai mais longe. O jornalista turco Hrant Dink deu depoimento favorável ao reconhecimento do genocídio em Screamers e em janeiro deste ano foi assassinado.
Tanto as realizadoras quanto a professora fizeram questão de frisar que filmes, livros ou qualquer outra forma de representação da tragédia armênia não devem ser considerados apenas nesse âmbito. “Eu não faço filmes políticos e sim sociais, para mostrar que pela arte, por exemplo, pode-se mudar muita coisa; vocês têm aqui o exemplo do trabalho do bailarino Ivaldo Bertazzo, com quem colaborei”, apontou Eileen. Carla citou a exibição de seu filme em Hamburgo, na Alemanha, para lembrar que os jovens presentes nunca tinham ouvido falar do extermínio armênio: “Isso porque a corte de Berlim foi a primeira a julgar, em 1933, os criminosos da guerra, que começou quando minorias da região como os armênios passaram a reivindicar mais liberdade; alguns poucos foram condenados e nada mudou muito desde então”. Lusine finaliza: “Um genocídio é uma tragédia da humanidade, e não só de um povo, como no caso armênio; temos que condenar essa prática para que ela não se perpetue”.
Escrito por Mostra às 17h52
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Teranga Blues: um Musical Rap em Dakar - Moussa Sene Absa, convidado da Mostra, é um dos principais expoentes do cinema africano
 Natural da cidade de Dakar, no Senegal, o cineasta Moussa Sene Absa é um dos nomes mais importantes da Sétima Arte no continente africano. Convidado da Mostra, ele está em São Paulo e também revelará outras facetas de sua atuação multimídia – afinal, é também ator, escritor, músico e artista plástico. Mas o carro-chefe de sua presença no evento é a exibição de seu mais novo e interessante trabalho, Teranga Blues. A história: depois de ser descoberto residindo ilegalmente na França, um jovem músico senegalês é deportado com apenas 20 euros no bolso. De coração partido, Dick volta ao seu país em algemas. Depois de uma série de decisões erradas, ele cai num abismo de fracassos.
Espécie de musical rap ambientado em Dakar, Teranga Blues é uma reflexão sobre as transformações sociais que afetam o orgulho do povo senegalês. O espectador da Mostra terá três chances para assistir ao filme: na sexta, dia 26, às 19:50 no HSBC Belas Artes 2; no sábado, dia 27, às 14:40 no Unibanco Arteplex 1; e na próxima quarta, dia 31, na Reserva Cultural Sala 1. Quem quiser conferir as idéia de Absa em pessoa, precisará apenas comparecer ao lounge do Clube da Mostra no domingo, dia 28, às 14 horas, quando será debatido o tema “Cinema Africano e a Co-Produção Francesa”.
Escrito por Mostra às 17h50
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Exibição de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" no vão livre do MASP
Não importou o fato de ser uma sexta-feira (dia 26), começo de uma noite chuvosa, conjunto que todo bom paulistano sabe que significa trânsito ruim, ainda mais na região da Paulista: o fato é que cerca de 500 pessoas lotaram o vão livre do MASP, às 19h30, para assistir, como parte da programação especial da 31ª Mostra, a uma projeção gratuita do candidato brasileiro ao Oscar 2008 de filme estrangeiro, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger.
Foi uma sessão inesquecível, em que o comentado filme conquistou novos fãs e avançou em sua história de sucesso tanto popular quanto de crítica. Antes da exibição, o filme foi apresentado por Hamburger e por Leon Cakoff, diretor da Mostra, que deixou clara sua felicidade com a ótima resposta de público, ainda mais por se tratar de um filme que defende a solidariedade e a tolerância. Que essa projeção na Mostra signifique bons augúrios às ambições futuras da fita.
Escrito por Mostra às 17h48
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Potosi, a Jornada: um Filme a Ser Descoberto - Ron Havilio é convidado da Mostra e está em São Paulo para divulgar seu filme
A Mostra tem por tradição programar filmes que, a despeito de não serem badalados pela mídia festeira, representam grandes momentos de puro cinema. Um deles, na programação da 31ª edição, é Potosi, a Jornada, do cineasta israelense Ron Havilio. Segundo Leon Cakoff, diretor da Mostra, ele é “o David Perlov desse ano”. Para bom entendedor, essa afirmação basta. E há apenas mais duas chances de se assistir ao seu filme: sábado, dia 27, às 14 horas, no Cine Bombril Sala 2, e quarta-feira, dia 31, às 19 horas, no Unibanco Arteplex 4. O próprio Havilio estará no lounge do Clube da Mostra no sábado, dia 27, às 18 horas, para discutir o tema “Memórias da Bolívia”.
Figura ativa e engajada no cinema praticado e exibido em Jerusalém, Havilio conquistou por esse filme o Prêmio Humanitário para Documentário no festival de Hong Kong, na China, em 2007. O tema: em 1970, depois de se casarem em Buenos Aires, Ron Havilio e sua mulher Jacqueline viajaram aos Andes com mochilas e câmeras fotográficas. Ao atravessar a Bolívia, no caminho para Cuzco, eles descobriram a cidade de Potosi, que já foi uma das maiores e mais ricas do mundo. Para os milhares de indígenas forçados a trabalhar nas profundezas da montanha, Potosi era a porta do inferno. Depois que as minas de prata se esgotaram, a cidade foi abandonada pobre e caiu no esquecimento. 29 anos depois, o casal retorna aos mesmos locais, desta vez com suas três filhas e uma câmera de filmar. O documentário é uma descrição da dimensão temporal de Potosi e dos Andes, assim como uma jornada de introspecção para o realizador e sua família.
Escrito por Mostra às 17h44
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ENTREVISTA - Shawn Linden: Diretor experimenta mistura de gêneros
Um filme noir com toques de realismo fantástico e idéias da ficção-científica e dos filmes de gângster dos anos 1950. Uma mistura que dá certo na tela graças ao talento do diretor canadense novato Shawn Linden. Ninguém é o nome de sua primeira obra cinematográfica, presente na 31ª Mostra. Consciente da dificuldade de compreensão imediata de seu filme, Linden compara sua obra a livros que nas primeiras páginas parecem não ser muito claros, mas que, mais à frente, revelam ter uma ótima história para contar. Os primeiros 20 minutos do filme não esclarecem muito sobre os rumos que o filme tomará. “Quando o espectador percebe que o início não é exatamente o começo do filme é quando a curiosidade o prende para saber como tudo de fato inicia”, explica Linden.
Em Ninguém, um assassino mascarado é levado a cometer um assassinato a mando de um chefe mafioso. Ao declarar que o crime foi bem-sucedido, o mafioso paranóico pede provas. O assassino foge pelas ruas noturnas num inverno rigoroso, mas antes de chegar a um lugar seguro, é atacado, perseguido e ferido por um assaltante que parece antecipar seus passos. Ele escapa com vida, mas um telefonema do chefe mafioso confirma o impossível: sua misteriosa vítima ainda está viva.
O filme trabalha com a sensação de continuidade de uma história dentro de outras que, em determinado momento, se cruzam e voltam a seguir seu caminho. O que parece ser apenas um filme de mafiosos e assassinatos pode ser o pesadelo de um dos personagens. O cuidado com a luz e os movimentos de câmera enriquece o tom de suspense e intriga, impulsionado pela trilha sonora. “O filme foi feito em digital e a luz foi uma preocupação nossa para não correr o risco de parecer uma gravação caseira, uma vez que o filme noir é feito de altos contrastes de luz”, explica o diretor. “Os enquadramentos foram o resultado de um estudo minucioso das locações para que pudéssemos aproveitar ao máximo os planos-seqüência e valorizar os cortes”, explica. O filme, que custou US$ 100 mil, foi todo rodado à noite, num frio de 40 graus negativos, na cidade canadense de Winnipeg.
Ninguém já circulou por oito festivais desde que ficou pronto, em julho deste ano, e foi indicado aos prêmios de ator (Costas Mandylor), diretor, melhor projeto experimental e melhor filme no festival Action on Film, de Long Beach, Califórnia. “Minha intenção é participar de festivais para ver a reação das pessoas antes de partir para a venda com distribuidores.” Até agora, o retorno do público tem sido positiva para Linden. “Em alguns casos, as pessoas que viram a primeira exibição voltam para a segunda para pegar algo que perderam nesse quebra-cabeça”, conta o diretor. “Definitivamente, não é um filme para todos os gostos, mas os que não gostam têm sido muito educados comigo, porque ninguém falou nada até agora”, brinca Linden.
A diversidade de público durante a primeira exibição na Mostra chamou a atenção do diretor, principalmente quando uma professora de Filosofia o questionou sobre a lógica filosófica por trás da história do filme. Como um bom leitor da filosofia existencialista, a resposta de Linden veio fácil: “Trata-se de um punhado de diferentes idéias religiosas que acabam cancelando uma a outra dentro dessa negação presente durante todo o filme”, explicou. Animado com o resultado de sua primeira aventura como cineasta, Linden já conta com novos projetos em mãos para dar prosseguimento à sua carreira de diretor: “Sempre foi isso que quis fazer e é o que pretendo continuar fazendo.”
Serviço: 29/10, Sala FAAP às 11:00
Escrito por Mostra às 17h43
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Simonee Chichester: Drama pessoal divide opiniões no documentário A Escolha de Chichester
Simonee Chichester, diretora de "A Escolha de Chichester
Essa é a história de uma mulher que deixa o Canadá com destino ao Brasil em busca do pai que vive nas ruas da maior cidade da América do Sul desde que a abandonou há 23 anos. Um tema tocante que qualquer cineasta saberia reconhecer como passível de interesse cinematográfico. Mas talvez nem todos tivessem coragem de executá-la se essa fosse a história de sua vida. Coragem foi o que não faltou para a canadense de nacionalidade brasileira Simonee Chichester expor seu drama nas telas em A Escolha de Chichester, que faz parte da 31ª Mostra.
A própria diretora, produtora e personagem do documentário acredita que muitas pessoas não fariam um filme pessoal sobre esse tipo de problema. “Mas quando se trabalha com arte, entende-se que a história é melhor quando há mais de você nela”, explica. Ela já trabalhava com TV no Canadá antes de ter a idéia de filmar sua vida. “Se eu não tivesse feito o filme, eu não teria mergulhado tão profundamente na vida do meu pai e não teria me reencontrado emocionalmente com minha mãe”. Simonee reconhece que não foi fácil enfrentar o seu passado e dele se abster para gerar um produto que depois fosse dividido com quem quisesse vê-lo. “Muitas vezes, quando eu estava na frente da câmera sendo a filha, eu esquecia um pouco que estava fazendo um documentário e, quando lembrava do filme, tinha de esquecer o lado emocional de ser a filha”, lembra. “O que de certa forma deu um equilíbrio ao filme”, complementa a diretora.
Da concepção do projeto até sua finalização foram quatro anos: “Como em toda e qualquer produção independente em que o recurso é escasso, a gente vai fazendo as coisas por etapa.” Pelo resultado obtido na última edição do Festival Internacional de Documentários do Canadá, o Hot Docs, valeu a pena ter esperado tanto. O filme foi considerado Top 10 da Audiência no festival. Recentemente foi apresentado no festival de Taiwan e está programado para ser veiculado em dezembro na TVO do Canadá e em Israel no início de 2008. No entanto, as reações ao documentário são adversas. Essa divergência de opiniões está relacionada ao final do filme. “Algumas pessoas não me entenderam enquanto outras respeitaram minha escolha e me compreenderam”. Quanto à reação no Brasil, Simonee espera que seja balanceada: “Acho que qualquer que seja a impressão que as pessoas tenham do filme, o importante é saber que eu queria contar uma história verdadeira e universal, mesmo que ninguém tenha um pai que viva nas ruas ou que seja alcoólatra, sempre haverá alguém que é tocado pela minha busca de identidade.”
Serviço:
A Escolha de Chichester (27/10, Cine Bombril Sala 1 às 12:00)
Escrito por Mostra às 17h42
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MasterCard promove interatividade no Clube da Mostra
Ser o personagem principal de seu próprio pôster, ter a coletânea em CD de todos os cartazes da Mostra ou dublar um minuto de cena do filme “O Ano que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, são as opções de interatividade entre cinema e espectador que o Clube da Mostra oferece em parceria com MasterCard. Para participar da promoção A Vida Imita a 7ª Arte, instalada no lounge da Mostra, no 5º andar do shopping Frei Caneca, é preciso apenas comprar os ingressos ou a permanente da Mostra com MasterCard e apresentar o comprovante. Cada transação dá direito a uma das opções acima, que ainda inclui um exclusivo chaveiro-monóculo e uma caixa de pastilhas para aproveitar na próxima sessão.
Escrito por Mostra às 12h40
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ENTREVISTA - Yoram Porath: Uma tribo e um paraíso em extinção
Yoram Porath, diretor de Defensores do Paraíso
Fotógrafo e redator da National Geographic por mais de cinco anos e hoje colaborador eventual da publicação, o israelense Yoram Porath rodou o mundo empenhado em registrar questões políticas, ambientais e de direitos humanos. Essas viagens incluíram a Amazônia, região que conhece muito bem. Mas foi um amigo espanhol que chamou sua atenção para os indígenas das tribos Huaraoni, no Equador. Nessa porção da floresta tropical, há pelo menos quatro décadas, cerca de 1500 índios sofrem com a destruição gradativa de seu paraíso ambiental pela ação de grandes empresas petrolíferas mundiais. Porath foi ao local e durante quatro meses registrou a dificuldade de sobrevivência do clã em função das águas poluídas pelo óleo e as conseqüentes doenças e mortes, a maioria por câncer. O resultado está em seu primeiro longa documental, Defensores do Paraíso, em exibição na 31ª Mostra.
A visão surpreendente que o realizador teve ao entrar em contato com a realidade dos Huaraoni serve agora ao objetivo primordial de seu filme: “Ouve-se muito falar da destruição da Amazônia, seja por ocupantes ilegais ou outros problemas, mas essa tragédia é desconhecida pela maioria das pessoas. Com os brasileiros não é diferente, por isso acho importante mostrar o filme aqui”, diz o diretor em entrevista exclusiva para a Mostra. Porath introduz o espectador primeiro ao cenário onde estão baseados os Huaraoni, seus costumes, como fabricar dardos para caça, e suas lendas, a exemplo de uma curiosa relação com as borboletas, que guiam os membros da tribo pela floresta: “Fiz questão de apontar esse paraíso em que eles vivem, sem roupas e em completa integração com a natureza, e sua mitologia tão rica para dar a medida do que as exploradoras de petróleo estão destruindo”.
A partir daí, o filme corre em progressão histórica. O documentário aborda desde a primeira empresa estrangeira que se instalou na região há quarenta anos e o surgimento dos dutos atravessando a reserva dos índios, inclusive por terras sagradas, até o número impressionante de dez bandeiras que atuam hoje na área. Porath ouve descendentes dos indígenas que naquele período aceitaram a chegada dos novos “moradores” com a crença de que estes vinham para lhes dar uma vida melhor com saúde, educação e infra-estrutura. “O Equador é um país que tem sua economia baseada na extração de petróleo, esta é sua maior riqueza. Ao mesmo tempo, é um país de governos fracos, que foram facilmente manipulados e pressionados pelas grandes multinacionais e seus interesses”, lembra Porath. Essa contradição apontada pelo diretor é confirmada no depoimento de uma especialista em História Natural sobre a ambigüidade das leis do país em relação à preservação da vida indígena e da natureza e a ocupação pelas exploradoras de petróleo. A mesma Constituição que protege no caso os Huaraoni e lhes dá voz no debate sobre o uso de suas terras também garante entrada livre às empresas.
Acostumados a encontrar no rio sua fonte de alimentação, seu lazer e outros usos habituais, como o banho diário, os indígenas passaram aos poucos a enxergar nessas águas escurecidas pelo óleo uma fonte de problemas de saúde. Uma análise da água realizada por uma ONG detectou altos índices de hidrocarbonetos de petróleo, magnésio e até arsênico. “De problemas sérios de pele, a questão evoluiu para graves doenças e a morte por vários tipos de câncer”, diz o diretor. Um índice alarmante sobre a incidência de câncer na tribo aponta que há 80% mais casos ali do que na capital Quito. Peixes e animais maiores como pacas também se amontoam mortos à beira dos rios. Ao confrontar responsáveis das empresas exploradoras, seus funcionários nos locais de operação e diretores sentados nos escritórios a quilômetros dali, Porath ouve constantemente a justificativa de que os estragos são muito pequenos, causados por fatos alheios às precauções que tomam. “Foi necessário constrangê-los para que se dessem conta do tamanho da tragédia”, diz o diretor.
Escrito por Mostra às 12h37
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Erik de Bruyn, diretor de "Nadine"
ENTREVISTA - Erik de Bruyn: Conflito Feminino Moderno como Pano de Fundo
“Analisar o filme apenas como a história de uma mulher que rapta o bebê do ex-noivo e foge para outro país seria ignorar o real motivo que me levou a fazer um longa que trata de um mal da sociedade moderna, a falta de identificação da mulher.” Foi dessa maneira que o diretor e roteirista holandês Erik de Bruyn começou a destrinchar a essência de seu filme Nadine durante entrevista exclusiva à Mostra. O filme, apresentado na 31ª Mostra, retrata o crescente problema das sociedades modernas em que a mulher, que vive na era pós-feminista, não tem de se preocupar em lutar por seus direitos e vê-se dividida entre a carreira e a necessidade imposta a ela de ser mãe. “Eu vivenciei o assunto através de amigas de universidade com quem ainda mantenho contato e por isso quis fazer um filme que refletisse esse problema.”
Essa não é a primeira vez em que o diretor de 45 anos aborda a busca do amor, o medo de não ter filhos e de envelhecer. Em Mexilhões Selvagens, seu primeiro longa, que participou da 26ª Mostra, o esvaziamento e a sensação de a felicidade ser um longo caminho a percorrer faz uma ponte com Nadine. Entre as referências cinematográficas que o diretor holandês buscou para trazer a emoção discutida nesse longa está o cineasta britânico Nicolas Roeg, em especial nas obras “Bad Timing” (1980) e “Eureka” (1984).
Três atrizes interpretam a personagem central durante o filme, que se comunica com o espectador através dos fragmentos de vida apresentados em flashback e de seus monólogos interiores. “Eu acredito que a mulher é a única criatura biológica capaz de mudar física, emocional e mentalmente, e quando escrevi o roteiro percebi que a personagem naquele momento poderia ser uma, em outro momento ser outra pessoa e em uma terceira etapa ainda outra completamente diferente”, explica o diretor, que justifica ser o envolvimento com o assunto mais importante do que a identificação com o personagem.
Ao fugir para Portugal, a protagonista, uma mulher de 42 anos que rapta o filho de sete meses de seu ex-noivo, com quem acabara de se encontrar num supermercado suburbano, entra em choque com seus sentimentos e suas reais necessidades – a de ter um filho é uma delas. Não é por acaso que seu primeiro sorriso natural é dado em uma ilha da costa portuguesa, quando se descobre aceita por uma afetuosa moradora local com quem faz amizade.
O filme foi rodado em 32 dias em co-produção com a Bélgica e entra em cartaz dia 25 de outubro nos dois países. Sobre a reação do público brasileiro ao filme, ele considerou positiva: “Espero que isso seja um bom presságio.” Assim como na América Latina, fazer cinema na Holanda também não é fácil. O filme contou com 1,5 milhão de euros do fundo holandês para cinema depois de diversas tentativas frustradas: “Há muitos cineastas e pouco dinheiro disponível”, reclama. Confiante de que a saída para o cinema mundial está nas co-produções internacionais, o diretor holandês encerra a entrevista com a esperança de um dia poder realizar um filme em parceria com o Brasil.
Escrito por Mostra às 12h37
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ENTREVISTA - Hideki Kitagawa: Amor e trauma em imagens sofisticadas
“Todas as boas histórias originais sobre amor já foram contadas; então eu tive que procurar o meu caminho”. E o caminho para o diretor japonês Hideki Kitagawa, em sua estréia no longa aos 43 anos, foi lançar mão de um relacionamento amoroso desesperado, situação recorrente no cinema, e traduzi-lo em imagens elaboradas que representem os contrastes vividos pelos amantes. Amor Pulsa Mais Rápido que Sangue é feito de escuros quase intransponíveis aos olhos do espectador, que servem aos momentos sombrios e mais radicais dos personagens, enquanto os raros claros marcam as passagens de liberdade, igualmente rarefeitas.
A polaridade é quebrada com a visão do sangue, elemento simbólico para a história de amor entre uma jovem tímida (Mihiro), traumatizada pela morte do pai e pelo estupro de que é vítima, e o artista (o próprio Kitagawa), que a acolhe e compartilha de sua dor. “Para conseguir mostrar na tela uma história de modo simples, forte e que ao mesmo tempo impressionasse, eu tive de me valer de símbolos; o sangue é o mais evidente deles”, disse o diretor em entrevista exclusiva para a Mostra. “Além disso, optei por pouquíssimos cortes e o mínimo de diálogos para valorizar as imagens”.
A sofisticação e o apuro dessas imagens muitas vezes beiram mais a videoarte do que o cinema. Kitagawa acredita numa aproximação inconsciente e necessária ao que buscava para o filme. Professor no Colégio de Artes Visuais de Tóquio e um pintor e desenhista amador, Kitagawa justifica como natural que o filme tenha nascido primeiro em imagens e depois no roteiro. “Era algo que estava na minha cabeça há algum tempo e, por isso mesmo, nem sempre tem um sentido racional”, diz. Um exemplo dessa memória guardada, cita ele, está nos primeiros minutos do filme, quando os dois amantes se abraçam dentro de um caixão. “Todos sabemos que um caixão é só para uma pessoa, mas ali vemos duas em total união, como se fossem uma só”. Essa alusão à morte se repetirá na cena mais delicada do filme, e Kitagawa concorda: trata-se do momento em que a jovem é estuprada pelo tio debaixo da cama onde jaz o corpo de seu pai, morto poucos instantes antes. De repente, o braço do cadáver se estende e segura a mão da filha em desespero. “É uma daquelas passagens simbólicas que lhe falei, desta vez em forma de milagre”.
Embora o diretor acredite que as referências às artes plásticas sejam espontâneas, admite que foi um universo atraente e confortável de se trabalhar. “A mãe de meu pai, que é um homem de negócios, pintava e me aproximou da arte; as referências nesse caso são então minhas, daquilo que eu gosto pessoalmente”. Não por acaso, a passagem emblemática do filme refere-se ao “action painting”, um dos movimentos mais vigorosos da pintura do século XX, para sintetizar a condição transitória dos personagens do caos à redenção. Mas em vez do pincel como instrumento para lançar tinta à tela, a exemplo do que fazia o norte-americano Jackson Pollock, o protagonista utiliza-se do sangue que verte de seu pulso.
Típica produção independente, Amor Pulsa... foi realizado com uma equipe de seis pessoas, alunos de Kitagawa. Depois de testar um ator para o papel principal, ele decidiu que precisaria ser ele mesmo a desempenhá-lo. “Não funcionou com o ator, pois eu não conseguia exprimir o que queria em palavras, então fiquei também à frente da câmera”. Admirador do conterrâneo Yasujiro Ozu e do francês Jacques Demy – a quem homenageia utilizando na trilha sonora, além dos sons eletrônicos de Aphex Twin, a música de “La Baie des Anges”, de 1963 –, o diretor faz questão de destacar o trabalho de fotografia do filme, a cargo de Yasuhisa Yasaku. “Foi uma parceria fundamental para que eu conseguisse traduzir em imagens o que eu não queria que saísse da boca dos atores”. Ele reconhece, no entanto, que nem todas as cenas permitem ao espectador enxergar o que se passa entre os protagonistas. Algumas chegam ao breu total. “Muitos criticam o filme por isso, mas acho que há títulos suficientes por aí mostrando até demais o que acontece; eu quis estimular a imaginação do espectador, criar deliberadamente uma ambigüidade”, justifica.
Serviço: Amor Pulsa Mais Rápido que Sangue (25/10, Unibanco Arteplex 2 às 13:30; 01/11, Reserva Cultural Sala 1, às 22:30)
Escrito por Mostra às 16h55
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As melhores frases sobre São Paulo
Lucilene Cury e Marcelo Mota Borges Pereira são os vencedores do concurso de melhores frases criadas sobre São Paulo. A iniciativa para promover o lançamento nacional do filme BEM-VINDO A SÃO PAULO contemplou os dois ganhadores com permanentes da 31ª Mostra.
Lucilene foi escolhida pela frase: “Sabe qual é o ar de São Paulo? É o ar da graça”. Já Marcelo levou sua credencial com a frase: “São Paulo é o ‘Google’ do mundo real”.
O filme BEM-VINDO A SÃO PAULO é uma produção da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em forma de criação coletiva, com assinatura dos seguintes cineastas internacionais convidados para o projeto: Phillip Noyce, Mika Kaurismäki, Jim McBride, Hanna Elias, Maria de Medeiros, Kiju Yoshida, Mariko Okada, Tsai Ming Liang, Ash, Mercedes Moncada, Franco de Pena, Andrea Vecchiato, Max Lemcke, Amos Gitaï, Daniela Thomas e Wolfgang Becker. O filme é narrado por Caetano Veloso e tem trilha musical assinada por André Abujamra.
Escrito por Mostra às 16h54
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31ª Mostra exibe filmes candidatos ao Oscar
Entre as indicações oficiais dos países ao Oscar de filme estrangeiro da 80ª edição, que acontece no dia 24 de fevereiro de 2008, dezenove podem ser conferidas na 31ª Mostra. Três títulos, o português Belle Toujours – Sempre Bela, de Manoel de Oliveira, Taxidermia, do húngaro Gyorgy Palfi, e o brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, foram exibidos na 30ª Mostra. O filme de Hamburger será reexibido no Vão Livre do MASP na sexta, dia 26 de outubro, às 19h30. E o Brasil, de certa forma, está representado duplamente na lista, já que O Banheiro do Papa, candidato do Uruguai, é uma co-produção com Brasil e França que tem co-direção de César Charlone, uruguaio com carreira brasileira.
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu (Romênia)
A Arte das Lágrimas, de Peter Schonau Fog (Dinamarca)
A Desconhecida, de Giuseppe Tornatore (Itália)
Armadilha, de Srdan Golubovic (Sérvia)
Armin, de Ognjen Svilicic (Croácia)
Beaufort, de Joseph Cedar (Israel)
Ben X – A Fase Final, de Nic Balthazar (Bélgica)
Caramel, de Nadine Labaki (Líbano)
Do Outro Lado, de Fatih Akin (Alemanha)
Eduart, de Angeliki Antoniou (Grécia)
El Orfanato, de Juan Antonio Bayona (Espanha)
Nas Asas do Sonho, de Golam Rabbany Biplob (Bangladesh)
O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger (Brasil)
O Banheiro do Papa, de Enrique Fernández e Cesar Charlone (Uruguai)
Padre Nuestro, de Rodrigo Sepúlveda (Chile)
Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud (França)
Postales de Leningrado, de Mariana Rondón (Venezuela)
Sombras, de Milcho Manchevski (Macedônia)
Vocês, os Vivos, de Roy Andersson (Suécia)
XXY, de Lucía Puenzo (Argentina)
Escrito por Mostra às 16h14
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Animando a Mostra: saiba quais os desenhos em longa selecionados para a 31ª Mostra
A 31ª Mostra programou cinco longas de animação que satisfarão a diferentes tipos de público. O veterano belga Picha, que há 35 anos constrói uma carreira apoiada no bom humor e no erotismo, comparece com seu mais recente trabalho, o debochado Branca de Neve, Depois do Casamento, em que os tradicionais contos de fada se desconstroem completamente. Num ritual diferenciado de animação, o norte-americano David Kaplan trabalha, em O Ano do Peixe, por cima de imagens reais para atingir um clima pictórico flutuante. Ele adapta uma versão medieval da história de Cinderela e a transporta para a Chinatown nova-iorquina atual. Já quem é fã de animação japonesa não pode perder Contos de Terramar, que consagra uma nova geração de realizadores – o diretor estreante em longa é Goro Miyazaki, filho do mestre Hayao Miyazaki (de “A Viagem de Chihiro”, exibido nas 27ª e 28ª Mostra). É uma história sobre terras e criaturas mágicas e poderosas. A dupla formada pelo francês Vincent Paronnaud e pela franco-iraniana Marjane Satrapi leva às telas o consagrado romance em quadrinhos Persépolis, de inspiração autobiográfica, que arrebatou os espectadores e levou o Prêmio do Júri no festival de Cannes de 2007. Para um público mais novo, a opção é o desenho brasileiro Garoto Cósmico, do também estreante em longa Alê Abreu, que recorre a uma trama futurista e tem entre os dubladores nomes como o saudoso ator Raul Cortez e os cantores Arnaldo Antunes e Vanessa da Mata. Um complemento a esse programa pode ser o documentário Moebius Redux – A Vida em Imagens, do alemão Hasko Baumann, uma viagem audiovisual (com trilha sonora de Karl Bartos, ex-Kraftwerk) sobre a obra da lenda dos quadrinhos Jean Giraud, ou Moebius. E, numa certa extensão, inclui também o filme Ben X – A Fase Final, do também belga e estreante Nic Balthazar, que tem inúmeras cenas filmadas no cyber-espaço e com atores virtuais.
Serviço:
Branca de Neve, Depois do Casamento (21/10, Cine Bombril Sala 1 às 15:30; 22/10, Cinemateca Sala Petrobras às 22:00) O Ano do Peixe (21/10, Sala FAAP às 19:00; 22/10, Cine Bombril Sala 1 às 14:00; 27/10, Cinemateca Sala Petrobras às 20:50) Contos de Terramar (24/10, Cinemark Shopping Eldorado às 19:00; 26/10, Unibanco Arteplex 4 às 16:10; 28/10, Reserva Cultural Sala 1 às 18:50) Persépolis (30/10, HSBC Belas Artes 2 às 21:50; 31/10, CineSesc às 21h10; 01/11, Cinemateca Sala BNDES às 15:10) Garoto Cósmico (22/10, Vão Livre do MASP às 19:30) Moebius Redux – A Vida em Imagens (30/10, Reserva Cultural Sala 1 às 22:30) Ben X – A Fase Final (26/10, Cinemateca Sala Petrobras às 22:20; 27/10, Espaço Unibanco de Cinema 3 às 18:40; 28/10, Reserva Cultural Sala 1 às 21:00)
Escrito por Mostra às 16h13
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Isabel Martinez, Vicente Ferraz e Mariana Rondón
DEBATE NO LOUNGE DISCUTE IDENTIFICAÇÃO LATINO-AMERICANA E O PAPEL DA MULHER NO CINEMA
Ser latino ou não ser: esse é o dilema de um Brasil que sempre se viu distante dos países vizinhos da América Latina, seja por questões culturais ou lingüísticas. No cinema, essa falta de identificação com a latinidade também se verifica, segundo o diretor brasileiro Vicente Ferraz, de O Estado do Mundo: “É importante o brasileiro se ver como um latino-americano até por questões práticas, como distribuição e projeção internacional da produção local, uma vez que lá fora o cinema brasileiro é classificado como latino-americano e não simplesmente brasileiro”, afirmou o diretor durante a abertura do debate Cinema Latino-Americano Parte 1, promovido na tarde do domingo, dia 21, no lounge do Clube da Mostra.
As condições de se produzir cinema latino-americano, o papel da mulher na produção regional e as relações políticas desse cinema também foram assuntos abordados no debate. A presença da venezuelana Mariana Rondón não poderia deixar de fora a polêmica iniciativa do presidente Hugo Chávez de criar um estúdio de cinema estatal, o Villa del Cine, apelidado pela imprensa de “bolivariwood” e que acaba de finalizar o primeiro filme, “Miranda Regresa”, sobre a história de um herói da independência, Francisco de Miranda (1750-1816). Esse título é o primeiro de 19 produções recém-concluídas ou em andamento a entrar no circuito comercial local. “Acho que não devemos discutir se é bom ou ruim esse tipo de intervenção governamental”, disse a diretora de Postales de Leningrado (indicado pela Venezuela ao Oscar 2008). “Até agora não houve nenhuma imposição restritiva ao que deve ou não ser produzido”, complementou a diretora.
A participação da mulher no cinema foi posta como pauta de discussão pela mediadora da mesa, a jornalista Maria do Rosário Caetano, ao observar a grande quantidade de mulheres fazendo filmes na Venezuela. “Daqui a alguns anos, teremos mais mulheres do que homens nessa área”, afirma Rondón. Segundo a costarriquenha Isabel Martinez, produtora de O Estado do Mundo, as mulheres também dominam a produção cinematográfica da Costa Rica. “Eu só conheço mulheres”, lembra Isabel. A audiência dos filmes latinos também foi tema do debate. Enquanto um blockbuster leva até 200 mil espectadores aos cinemas da Venezuela, uma produção local como Postales de Leningrado deverá levar no máximo 60 mil pessoas. “É pouco, mas nosso público não é de fato o mesmo de um blockbuster”, ressaltou a produtora peruana Marite Ugas.
Os quatro convidados à mesa de debates não têm apenas em comum o fato de estarem representados por dois filmes na 31ª Mostra. Eles também dividem um passado em comum: todos foram alunos da famosa escola de cinema Santo Antonio de Los Baños, em Havana (Cuba). Perguntados se a escolha da escola estava relacionada a alguma convicção político-ideológica, Ugas lembrou que, naquela época (final dos anos 1970), não havia escolas de cinema na América Latina com exceção de Cuba, que era vista como novidade diante dos cenários já conhecidos da Europa e dos Estados Unidos. “Não fomos pra lá com a intenção de participar de qualquer revolução”, afirmou a produtora. “A revolução não está em governar, está na arte”, finalizou.
Escrito por Mostra às 16h11
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Gael García Bernal e o produtor Pablo Cruz
GAEL GARCÍA BERNAL CONFIRMA TALENTO E SIMPATIA EM DEBATE NA FAAP
A simpatia do ator mexicano Gael García Bernal foi mais uma vez comprovada durante o debate promovido pela 31ª Mostra, realizado no sábado, dia 20, no auditório da FAAP. O debate foi precedido da exibição do filme que marca a estréia do ator como diretor, Déficit. É um filme curto, como o próprio realizador comentou logo no início da conversa, que conta a história de um grupo de jovens da elite mexicana que dão uma festa na casa dos pais do personagem central, interpretado pelo próprio Gael. O filme abriu a Semana da Crítica da última edição do festival de Cannes.
A pungência do tema abordado foi destacada pelo diretor da Mostra, Leon Cakoff, na abertura do debate, que também contou com as presenças do diretor da Faculdade de Comunicação da FAAP, Rubens Fernandes Júnior, do produtor Pablo Cruz e do apresentador Serginho Groisman, que intermediou a mesa. “A intenção foi criar uma situação em que os personagens são vítimas do sistema, dos pais, das diferenças culturais, sociais e raciais que estão muito presentes na sociedade mexicana”, explicou o diretor e ator. No filme, Cristobal e Adam foram amigos na infância quando criados juntos, mas ambos cresceram e as diferenças sociais encarregaram-se de separá-los. Adam é filho do caseiro que está de trabalho no dia da festa do filho do patrão.
Em resposta ao questionamento levantado pelo apresentador Serginho Groisman, o ator e diretor defendeu seus personagens como jovens que perderam a inocência. A explicação para a escolha do título do filme nasceu dessa perda. “Além de essa palavra nos acompanhar desde pequenos nas questões econômicas e sociais do país, todos os personagens têm um déficit afetivo.” Perguntado sobre as dificuldades em distribuir um filme independente, Gael o comparou a um produto orgânico, cujo número de interessados no mundo industrial em que se vive ainda é pequeno. “Para entrar nos grandes esquemas de distribuição, o filme tem de ser épico, de grande impacto, o que não é a proposta de uma produção independente”, ressaltou o ator.
Para o produtor de Déficit, Pablo Cruz, o fato de o personagem central ser um ator de projeção internacional ajuda bastante na distribuição do filme: “Sei que em breve o filme será lançado aqui no Brasil.” Já há uma intimidade entre o ator e o Brasil. Depois de interpretar o revolucionário Che Guevara em “Diários de Motocicleta” (2004), de Walter Salles, o jovem ator de 28 anos protagoniza também o filme do argentino radicado no Brasil Hector Babenco, O Passado, que, depois de abrir a 31ª Mostra, estréia na sexta, dia 26, nos cinemas do país. Gael também está presente na 31ª Mostra como protagonista de Sonhando Acordado, de Michel Gondry.
Escrito por Mostra às 16h10
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Eliseu de Souza Lopes Filho, Leon Cakoff, Claude Lelouch, a tradutora Marina, Audrey Dana e Serginho Groisman
Em debate, Claube Lelouch reafirma suas convicções na vida e no cinema
“A vida é a vedete permanente de meus filmes”: com essa frase, o cineasta francês Claude Lelouch, 70 anos no próximo dia 30 de outubro, sintetizou sua carreira de 41 títulos para uma platéia que lotou na tarde de sábado, dia 20, o auditório da FAAP. O primeiro debate da 31ª Mostra reuniu Lelouch, que tem uma retrospectiva de oito filmes na programação, e a atriz Audrey Dana, protagonista de Crimes de Autor, o mais recente filme do diretor, exibido antes do encontro junto com o curta Rendez-Vous, de 1976. Mediada pelo apresentador Serginho Groisman, a conversa foi introduzida pelo diretor da Mostra Leon Cakoff. “Tenho muito orgulho de trazer Lelouch para a Mostra”, iniciou Cakoff. “Muito desse universo de cinema que tanto gostamos deve muito a esse admirável realizador.” Durante uma hora, o cineasta respondeu com humor e simpatia a perguntas dos presentes na mesa e também do público.
Surpreendente em sua realização, os dez minutos feéricos do curta foram motivo de curiosidade no início do bate-papo. No filme, o próprio cineasta conduz um carro a 140 quilômetros por hora pelo centro de Paris, sem nunca parar ou respeitar a sinalização, assustando aves e pedestres. A visão que se tem do trajeto é a mesma do motorista, e o único som ouvido é o do possante ronco do motor. “Foi uma pequena loucura que eu, um maníaco por compromissos, resolvi fazer, mas não repetiria uma segunda vez”, brincou Lelouch. “Rendez-vous”, em francês, significa um encontro marcado. Ele explicou como foi a realização. “Eu queria dirigir uma Ferrari, mas o carro tem uma suspensão muito baixa e eu não conseguiria manter a câmera parada atrelando-a ao pára-choque”, explicou o realizador. “Então usei uma confortável Mercedes, coloquei um motor igual, e num sábado às seis da manhã dei início a essa loucura”.
Estrada e velocidade são dois aspectos que marcam a trajetória de Lelouch desde suas primeiras experiências com a câmera, para filmar as 24 horas de Les Mans e o Tour de France. No debate, também foi lembrado que Crimes de Autor faz uso do carro e das auto-estradas como símbolo de liberdade conquistada pelos protagonistas da história. Mas para realizar seus filmes, como explicou o diretor, ele diminui bem a marcha e por vezes chega a ficar com um projeto em ponto morto durante cinco ou seis anos. “No caso desse novo filme foi pior”, lembrou.
“Eu tinha ele na minha cabeça há quinze anos, mas só agora estava pronto e maduro para ser feito; os filmes têm que ir maturando, eles têm seu tempo para acontecer”. Filme de gênero policial e romântico que Lelouch domina muito bem, Crimes de Autor representa para o cineasta o universo que ele mais procura abordar nos cinemas. “É formado por histórias de vida, não mais ou menos importantes que qualquer das duzentas histórias que temos reunidas aqui nesse momento”, explicou. “Cada filme meu é uma tentativa de mostrar essas vidas, contar um pouco das seis bilhões que existem por aí”. Para ele, as vidas da cabeleireira interpretada por Audrey Dana e do ghost-writer, papel de Dominique Pinon, foi enfocada com esse contexto. “Nas vezes em que eles se encontram no posto de gasolina, filmei de propósito os reflexos no vidro para que se visse que há vida acontecendo em torno deles, não estão sozinhos”.
Lelouch lembrou a integração fundamental da atriz ao projeto para que tudo dê certo. Atriz de teatro, Audrey foi vista por Lelouch no palco e então recebeu o convite para o papel. “Quando cheguei para filmar foi que notei que ele já havia identificado o personagem em mim”, disse a atriz. “Eu vejo os filmes de Lelouch desde que comecei a ir ao cinema, mas só entendi agora o que ele quis dizer quando pede para nós, atores, saltarmos no vazio”. A atriz comentou que dada à complexa teia de sub-tramas e seus específicos personagens, ela só foi conhecer a história de fato ao ver o filme. “Vi seis vezes e só aí me dei conta das várias camadas da história e suas complexidades”. Lelouch lembrou que comumente não entrega o roteiro aos atores para que eles “não interpretem ou desempenhem” e assim se sintam a vontade para criar, mas que desta vez o fez por causa desse painel recortado. “Eu não sou um ditador; costumo dizer que entre um ladrão e um violentador de atores, eu sou da primeira categoria, pois tem de se tirar o melhor do intérprete”.
Perguntado sobre a constante da música em seu cinema, Lelouch disse que ela é uma personagem nos filmes. “Se eu tivesse que reduzir meu trabalho a dois componentes, eu diria que é a câmera, representante racional no filme, e a música, que fala ao inconsciente e ao irracional”, explicou. “É por isso que ela fica depois na memória do espectador”. Leon Cakoff lembrou também a participação do cineasta no projeto coletivo Cada Um com Seu Cinema, programado também na 31ª Mostra, no qual Lelouch assina um episódio em homenagem às salas de cinema. Essa preocupação com o destino da tela grande encerrou o debate. “As salas de cinema estão em perigo; isso me entristece muito porque ali é que se dá a comunhão do público, como numa igreja em que todos rezam juntos; jamais será a mesma coisa com a TV ou o DVD”, afirmou Lelouch.
Escrito por Mostra às 12h53
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Brincando de Sétima Arte no Clube da Mostra
Em um evento cinematográfico como a Mostra, nada melhor do que saber um pouco mais sobre como funcionam as engrenagens que deram origem e movimento à Sétima Arte. No lounge que abriga o Clube da Mostra, aberto ao público no sábado, dia 20, é possível aprender brincando com os quatro cinematógrafos dispostos na entrada do espaço, numa instalação de nome Brinquedos Óticos.
Não são apenas as crianças que se encantam com os fenacistoscópios, criados por Joseph Plateau em 1833, onde o simples girar de uma roda na vertical dá movimento aos 12 desenhos. Os visitantes da Mostra podem também se deleitar, por exemplo, com o zootrópio e o praxinoscópio, que são dois tambores giratórios munidos de fendas em que são coladas as tiras de papel. Ao girá-los, as imagens por trás dessas fendas criam vida, dando noção exata de como as imagens dos filmes em película se deixam projetar.
O lounge, cuja cenografia é assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara, tem também outras opções de interação, que podem ser conferidas durante toda a 31ª Mostra, das 11 às 23 horas, no 5º andar do shopping Frei Caneca. O espaço abrigará também debates e lançamentos de livros.
Escrito por Mostra às 12h50
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