CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO DA 31ª MOSTRA ACONTECE EM CLIMA DE CONFRATERNIZAÇÃO

CERIMÔNIA DE ENCERRAMENTO DA 31ª MOSTRA ACONTECE EM CLIMA DE CONFRATERNIZAÇÃO

Depois de duas semanas de efervescência cinematográfica e cultural, a 31ª Mostra encerrou suas atividade oficiais na noite de quinta-feira, dia 01º de novembro, com uma cerimônia de premiação e a pré-estréia do mais novo trabalho dos irmãos Ethan e Joel Coen, Onde os Fracos não Têm Vez, ambos realizados no Memorial da América Latina. Logo após a entrega dos prêmios, o diretor e a diretora de programação da Mostra, Leon Cakoff e Renata de Almeida, fizeram um apelo às autoridades para que se reveja o critério de circulação de cópias de filmes, cujos entraves burocráticos foram responsáveis por alguns casos de fitas apreendidas na alfândega. “Isso prejudica não somente a Mostra como a imagem do Brasil lá fora”, reforçou Cakoff.

Dois dos homenageados deste ano pela Mostra receberam prêmios pelo reconhecimento de seus trabalhos. O primeiro, o chinês Jia Zhang-ke, recebeu, reverenciado pela jornalista Maria Fernanda Menezes, o prêmio de melhor filme da 29ª Mostra (por O Mundo). Ele brincou com o fato de, em uma retrospectiva, ganhar um prêmio retrospectivo. “Levei 29 horas para chegar em São Paulo, mas quando cheguei aqui me senti muito próximo de todos, como se já nos conhecêssemos”, declarou o diretor. O segundo homenageado a subir ao palco foi o cineasta israelense Amos Gitaï, que recebeu das mãos do diretor da Mostra o Prêmio Humanidade pelo conjunto de sua obra, que inclui Kippur – O Dia do Perdão (2000) e A Retirada (2007), este exibido durante a 31ª Mostra.

O longa francês A Questão Humana, de Nicolas Klotz, abriu a noite com o prêmio da crítica deste ano. Na ausência do diretor, o prêmio foi entregue ao representante da embaixada francesa, o adjunto do adido Audiovisual em São Paulo da França, Benjamim Seroussi. O filme da venezuelana Mariana Rondón, Postales de Leningrado, ficou com o prêmio do júri de revelação e o Prêmio da Juventude. Entusiasmada, ela afirmou que láureas dão mais coragem para se fazer cinema.

O prêmio do público de melhor filme estrangeiro de ficção foi dividido entre o norte-americano Into the Wild, de Sean Penn, e o francês Persépolis, de Marjane Satrapi e Vincent Parannaud. A atriz e diretora portuguesa Inês de Medeiros ficou com o prêmio do público de melhor média-metragem por Cartas a uma Ditadura. “Essa Mostra é uma emoção o tempo todo até o fim”, agradeceu emocionada. “E que aqueles dias não voltem mais”, disse em referência à ditadura do seu país.

O Filme da Rainha, do argentino Sergio Mercurio, foi considerado o melhor documentário estrangeiro pelo público. Já o troféu de melhor documentário brasileiro ficou com Pindorama – A Verdadeira História dos Sete Anões, de Roberto Berliner, Leo Crivelare e Lula Queiroga. O trio de diretores também ganhou o prêmio TeleImage de finalização, que dá direito a 30 horas de telecine off-line (transformação do filme de 35mm para digital), 15 minutos de transfer (passagem da imagem digital para película 35mm) e 60 horas de edição de som.

O secretário de Cultura da Cidade de São Paulo, José Roberto Sadek, anunciou o prêmio do público de melhor longa brasileiro de ficção, que foi para Estórias de Trancoso, de Augusto Sevá. O diretor dedicou o prêmio aos não-atores do filme, no elenco formado pela própria população local. O documentário também recebeu o prêmio TeleImage. O melhor documentário escolhido por um júri especial foi para Transformaram Nosso Deserto em Fogo, de Mark Brecke. O diretor dedicou o prêmio ao povo do Sudão, onde passa o filme.

O júri que selecionou os curtas-metragens escolheu O Crime da Atriz, de Elza Cataldo, como o melhor brasileiro. Duas produções francesas ficaram com o melhor curta estrangeiro e a menção especial: Em Construção, de Zhenchen Liu, e O Pequeno Martin, de Violaine Bellet.

Quatro dos cinco membros do júri oficial da 31ª Mostra (Moussa Sene Absa, Férid Boughédir, Inês de Medeiros e Lúcia Murat) apresentaram o vencedor do prêmio especial do júri, que ficou com o polonês Truques, de Andrzej Jakimowski. O júri também apresentou o prêmio especial de atriz. A vencedora foi Carla Ribas, por sua interpretação em A Casa de Alice. Presa na ponte-aérea Rio/São Paulo e sem conseguir chegar a tempo para a cerimônia, o diretor Chico Teixeira recebeu o prêmio em nome da atriz. “Carla foi uma descoberta fascinante”, declarou emocionado. “Eu estava correndo no parque do Jardim Botânico do Rio quando me telefonaram para contar a novidade. Fiquei felicíssima por esse reconhecimento”, declarou a atriz após conseguir desembarcar em São Paulo.

E o gran finale da noite de encerramento da 31ª Mostra ficou por conta da entrega do troféu Bandeira Paulista (desenhado por Tomie Ohtake) de melhor filme segundo o público: O Banheiro do Papa,de Enrique Fernández e César Charlone, foi o grande vencedor da categoria. Ao subir ao palco ao lado de alguns companheiros de filme, Charlone lembrou do esforço e da colaboração de cada um para o sucesso do longa. “Como um uruguaio bem brasileiro que sou sempre quis compartilhar a visão do Uruguai que eu conheço com aqueles que me cercam”, agradeceu o diretor.



Cerimônia de Encerramento da 31ª Mostra no Memorial da América Latina






Público acompanha a Cerimônia de Encerramento da 31ª Mostra






Público caminha para o auditório do Memorial da América Latina






Leon Cakoff, Renata de Almeida, Serginho Groisman e Marina Person






A jornalista Ana Paula Sousa entrega o Prêmio da Crítica






O adjunto do adido Audiovisual da Embaixada da França no Brasil, Benjamin Seroussi, recebe o Prêmio da Crítica para Nicolas Klotz, por "A Questão Humana"






Jia Zhang-ke recebe da jornalista Maria Fernanda Menezes o Prêmio de Melhor Longa Estrangeiro da 29ª Mostra por "O Mundo"






Mariana Rondón recebe o Prêmio do Júri Revelação e o Prêmio da Juventude por "Postales de Leningrado"






O membro do júri Moussa Sene Absa






César Silva, da Paramount Pictures, recebe o Prêmio do Público de Melhor Longa Estrangeiro de Ficção por "Into the Wild", de Sean Penn






Inês de Medeiros recebe de Hubert Alquéres o Prêmio do Público de Melhor Média-Metragem por "Cartas a uma Ditadura"






Roberto Berliner e Lula Queiroga recebem o Prêmio do Público de Melhor Documentário Brasileiro por "Pindorama – A Verdadeira História dos Sete Anões"






Patrick Siaretta anuncia o Prêmio TeleImage de Finalização para os Prêmios de Melhor Documentário Brasileiro, Melhor Longa-Metragem Brasileiro e Melhor Curta Brasileiro






Elza Cataldo recebe o Prêmio do Júri de Melhor Curta Brasileiro por "O Crime da Atriz"






Mark Brecke recebe o Prêmio do Júri de Melhor Documentário por "Transformaram Nosso Deserto em Fogo"






Os membros do júri Moussa Sene Absa, Inês de Medeiros, Férid Boughédir e Lúcia Murat






Amos Gitaï, cineasta israelense de "Kippur – O Dia do Perdão" e "A Retirada", recebe de Renata de Almeida e Leon Cakoff o Prêmio Humanidade





Mark Brecke, vencedor do Prêmio do Júri de Melhor Documentário por "Transformaram Nosso Deserto em Fogo"






O membro do júri Férid Boughédir






O membro do júri Moussa Sene Absa






Augusto Sevá recebe o Prêmio do Público de Melhor Longa Brasileiro de Ficção por "Estórias de Trancoso"






Inês de Medeiros, membro do júri






Chico Teixeira, diretor de "A Casa de Alice", comemora o Prêmio do Júri de Melhor Atriz pela atuação de Carla Ribas






Renata de Almeida e Leon Cakoff






O diretor César Charlone e a equipe da O2 Filmes comemoram o Prêmio do Júri de Melhor Filme por "O Banheiro do Papa"



Escrito por Mostra às 11h27
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ENTREVISTA:Jean Paul Civeyrac - Fantasmas Atrelam o Sobrenatural ao Amor



Jean Paul Civeyrac




Todo ser humano tem seus fantasmas e o cineasta francês Jean Paul Civeyrac não é diferente. A peculiaridade em seu caso é que ele decidiu dar forma, nome e função aos espectros que rondam os vivos e apresentá-los como personagens de alguns de seus dez filmes, entre curtas e longas, oito dos quais integrantes da retrospectiva na 31ª Mostra. As “aparições”, ainda que não sejam um recurso permanente do diretor, transformaram-se numa marca efetiva de um cinema de personalidade autoral. “Antes de tudo, foi a simbologia que encontrei para não fazer um cinema realista, que me interessou apenas no começo, mesmo assim já de uma forma abstrata, mas que não me motiva mais”, explica o diretor em entrevista para a Mostra. “Os fantasmas estão no meu cinema para representar principalmente uma metáfora ao que a potência do amor pode levar uma pessoa”.

A chave realista a que o diretor se refere está em seu curta de estréia, A Vida Segundo Luc (1991), trabalho de conclusão de curso na escola conhecida como La Fémis, onde é professor, e no primeiro longa, Nem de Eva, Nem de Adão (1996). Este foi baseado no que os franceses chamam de “fait divers”, notícias sensacionalistas publicadas pela imprensa. Ma já no curta anterior, Civeyrac lembra, os sonhos noturnos do garoto de programa do título prenunciavam a existência dos seres fantásticos, que só surgiram assumidamente em Os Solitários. Segundo longa do diretor, realizado em 1999, o filme é modelar em vários aspectos da obra que se seguiria, a começar pela trama. Pierre, viúvo recente, é representante de uma linhagem característica de personagens no cinema de Civeyrac. São pessoas que como ele perderam um ente querido – pai, mãe, o amado ou a amada – e, não conseguindo superar a perda, vêem-se por vezes consolados pela visão de quem mais sentem falta. Ou seja, o uso do sobrenatural está diretamente atrelado ao amor. Este sim condutor por excelência do cinema de Civeyrac, o sentimento pode ser retratado a partir da mitologia, a exemplo da história atualizada de Orfeu e Eurídice do curta A Bela Face da Tristeza, ou de um romance sobre um errante sentimental como “Penses-tu Réussir!” (1897), de Jean Tinan, adaptado para O Doce Amor dos Homens.

Esse recurso, confirmado e evidenciado já a partir do título em Fantasmas (2000), nem sempre é desvendado de pronto pelo espectador. O segredo, literalmente a alma do negócio aqui, permite a Civeyrac expor pouco a pouco o sentido e a razão de tal apelo sobrenatural. “Há algumas questões relativas à humanidade que são difíceis de dividir com a platéia. Acredito, por exemplo, numa coexistência entre passado e presente e o fantasma materializa muito bem esse aspecto”, explica ainda Civeyrac. Ele lembra que além de tocantes momentos de sua vida, ao perder a mãe e um avô, a literatura e o cinema asiáticos também contribuíram para o surgimento dos fantasmas. “São figuras comuns, por exemplo, no cinema japonês que eu gosto muito, especialmente no de (Kenji) Mizoguchi”, lembrou.

O simbolismo proposto pelo diretor talvez soasse apenas enigmático ou frágil se não fosse a elaboração de uma sofisticada e enxuta mise en scène. Seus cenários são quase sempre lugares fechados e invadidos por um mínimo de luz, onde quatro ou menos personagens dão seguimento a seus conflitos. O grau varia da radicalidade de um drama como o apresentado em Os Solitários, encenado – vale emprestar neste caso o sentido teatral do termo – boa parte do tempo por dois irmãos num cubículo parisiense e vez ou outra por mais dois personagens, a momentos exteriores que pouco influenciam na trama. Não por acaso, a primeira construção é aquela dedicada aos personagens atormentados pela dor e, portanto, receptivos aos fantasmas. “Há razões econômicas na escolha de um único cenário e poucos atores para quem, como eu, conta com um orçamento pequeno”, apontou o diretor. “Mas essa opção permite que eu crie uma atmosfera que não distraia o espectador do essencial, que é dividir o sofrimento do personagem, e isso se faz chegando bem perto de seu rosto, acompanhando suas feições e atitudes”.

Inevitável pensar numa aproximação com o cinema do francês Robert Bresson, o diretor do rigor e silêncio absolutos, que deixava surgir como único som na tela os ruídos da encenação. Civeyrac admira Bresson, mas prefere cautela na comparação. “Para mim existem dois pais do cinema francês moderno, genericamente falando, que são Bresson e Maurice Pialat”, comentou. “Eu sou filho do primeiro, por certo, mas acho que me distancio de seu cinema minimalista, seco, na medida em que muitas vezes adoto o barroco, como em Através da Floresta”. O cineasta diz que busca uma depuração no próprio processo do filme, enquanto Bresson já apresentaria o filme depurado na tela. Outro ponto de separação fundamental é o uso da música. A opção clássica por Johann Sebastian Bach ou pelo compositor do barroco francês François Couperin é constante, mais do que a produção experimental contemporânea, a exemplo de John Cage. A trilha sonora acaba por delinear um universo próprio no filme, à margem dos acontecimentos e personagens: “Muitas vezes faço a montagem junto com a edição de som, como os ruídos externos, e com a música, para que adquiram um corpo só”.

Embora alinhavado por temas e estilo muito semelhantes, o cinema de Civeyrac não se originou, segundo ele, de uma concepção premeditada que o igualasse, formando assim uma obra única, fechada: “Foi por acaso, tudo foi surgindo aos poucos. Acho que cada filme tem diferenças singulares que sugerem mais realismo ou abstração”. Em seu próximo filme, os fantasmas voltam a se recolher para dar lugar a outra história que circula pelos jornais franceses: “Há um índice preocupante de suicídio entre adolescentes atualmente na França, e farei um filme a partir da morte de dois deles no interior do país”. Ele concorda, no entanto, que também há fantasmas políticos e sociais que assombram tanto quanto os pessoais.

Escrito por Mostra às 11h17
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