FESTIVAL PROMETE BANQUETE DE FILMES
WALTZ WITH BASHIR, de Ari Folman

FESTIVAL PROMETE BANQUETE DE FILMES

A última edição da revista inglesa ‘Screen’ (www.screendaily.com) no Festival de Berlim começou a especulação sobre os possíveis filmes que estarão na seleção do próximo Festival de Cannes (14-25/Maio/2008). Como sempre, parece haver mais títulos do que espaço para tanta novidade. Os títulos sugerido no artigo “Global glitterati line up for Cannes in May”, de Mike Goodridge só não consegue imaginar quais serão as revelações de Cannes, ao lado dos autores veteranos e de talentos reconhecidos cujos filmes já estão prontos para o festival francês.

Segue a lista dos notáveis pela ‘Screen’:

O curioso documentário em animação do israelense Ari Folman WALTZ WITH BASHIR, com as lembranças do autor 25 anos depois de testemunhar como soldado o massacre de Sabra e Chatila, em setembro de 1982, nos campos de refugiados palestinos em Beirute.

ASHES OF TIME REDUX, a remixagem de um filme raro de artes marciais de Wong Kar Wai, pouco visto pelo mundo, mas destaque na seleção da 19ª Mostra.

FROZEN RIVER, da estreante americana Courtney Hunt, sobre a luta e amizade de duas mulheres, uma delas descendente de índios Mohawk na fronteira entre Nova York e Quebec. O filme deriva de um curta-metragem originalmente rodado em 2004. O longa venceu o último Festival de Sundance.

WHAT JUST HAPPENED?, do famoso diretor americano Barry Levinson. Duas semanas na vida de um produtor de cinema com dificuldades de terminar um filme e um elenco de notáveis de Hollywood – Bruce Willis, John Turturro, Robert De Niro + Sean Penn, que irá presidir o júri do festival de Cannes.

O documentário ROMAN POLANSKI: WANTED AND DESIRED, de Marina Zenovich sobre o escândalo e a tragédia particular do grande cineasta polonês que teve de fugir dos EUA em fevereiro de 1978 com acusações de pedofilia. O cineasta não participa do filme, mas aparece muito com a seleção de entrevistas de trinta anos atrás.

LE SILENCE DE LORNA, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, duas vezes Palma de Ouro em Cannes. Neste novo drama, o casamento arranjado para uma jovem albanesa clandestina com um drogado. Ela vira belga e como agradecimento tentará salvar a vida do toxicômano.

THE PALERMO SHOOTING, de Wim Wenders, uma história de amor e desencantos com um fotógrafo que abandona a Alemanha pela Sicília. Com o rock-star alemão Campino + os ícones Lou Reed, Patty Smith e Giovanna Mezzogiorno. Dannis Hopper, o AMIGO AMERICANO, em um filme de Wenders de 1977, também está no elenco.

PARLEZ-MOI DE LA PLUIE/ LET IT RAIN, da francesa Agnès Jaoui. Drama, comédia e documentário sobre ambição política num cenário de interior.

DAYDREAMS, do cineasta turco Nuri Bilge Ceylan, comparado ao mestre Michelangelo Antonioni. Seus dois filmes anteriores foram revelados no mesmo festival.

LINHA DE PASSE, de Walter Salles e Daniela Thomas, um forte drama sobre os escapes possíveis para quatro irmãos sobreviverem em São Paulo. Entre Fiedor Dostoievski e Krzysztof Kieslowski, com o já crescido Vinícios de Oliveira (o ator mirim em CENTRAL DO BRASIL) como um dos irmãos.

Com o Urso de Ouro em Berlim, as atenções devem se voltar mais para o Brasil e a América Latina. Outro do Brasil deve ser a co-produção com o Canadá CEGUEIRA/ BLINDNESS, de Fernando Meirelles, com Julianne Moore e Gael Garcia Bernal, adaptado do livro ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de José Saramago.

LEONERA/ LION’S DEN, do argentino Pablo Trapero, em que uma mulher encarcerada luta para criar o seu filho da prisão.

RUDO Y CURSI, de Carlos Cuaron. O filme promove o reencontro dos atores Diego Luna e Gael Garcia Bernal depois de Y TU MAMÁ TAMBIÉN, cujo roteiro foi escrito por Carlos com o seu irmão Alfonso Cuaron.

Outro filme mexicano em Cannes poderá ser o de Guillermo Arriaga. O autor/escritor/roteirista de BABEL, 21 GRAMAS/ 21 GRAMS, TRÊS ENTERROS/ THE THREE BURIALS OF MELQUIADES ESTRADA, AMORES PERROS, rompeu com o diretor Alejandro González Iñáritu e estréia na direção com o seu próprio roteiro em THE BURNING PLAIN. Como é de sua marca, o filme parte com duas histórias paralelas, de mãe e filha que tentam estabelecer vínculos.

E mais latinidade poderá ser vista com a versão de Steven Soderbergh sobre o mito Che Guevara.

Entre os asiáticos, a expectativa seria pelas novidades do chinês Jia Zhang-ke (24 CITY), homenageado na 31ª Mostra Internacional de Cinema; o vietnamita Tran Anh Hung (I COME WITH THE RAIN); os coreanos Kim Ji-woo (THE GOOD, THE BAD AND THE WEIRD) e Kim Ki-duk (DREAM); e os japoneses Kiyoshi Kurosawa (TOKYO SONTA), Hirokazu Kore-eda (ARUITEMO ARUITEMO) e Ryosuke Hashiguchi (GURUNI NO KOTO).

Especula-se ainda, na cota européia, o novo do inglês Michael Winterbottom, GENOVA, uma história de fantasmas rodada na Itália; o novo do multinacional Barbet Schroeder, o thriller francês INJU; MR. NOBODY, o novo do belga Jaco Van Dormael (UM HOMEM COM DUAS VIDAS/ TOTO THE HERO), com uma grande produção sobre imortalidade e crise existencial; ST GEORGE SHOOTS THE DRAGO (ou AMÉRICA), do polonês Jerzy Skolimowski; Laurent Cantet (EM DIREÇÃO AO SUL/ VERS LE SUD) com o novo ENTRE LES MURS; e ainda a veterana AGNÈS VARDA, com o documentário LES PLAGES D’AGNES.

Pelos EUA há chances ainda para o novo filme dos irmãos Andy e Larry Walchowski com SPEED RACER, inspirado em uma série japonesa de animação sobre corrida de carros. Por fim, espera-se a apresentação especial de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal/ INDIANA JONES AND THE KINGDOM OF THE CRYSTAL SKULL, de Steven Spielberg. Cannes faz a festa com o cinema dos pop stars, mas no fim, presta-se perfeitamente à difusão do bom cinema autoral e pensante.

É bom não esquecer que esta lista especulativa está mais voltada à lista dos filmes em competição e apresentações especiais. Cannes faz acontecer filmes em muitas outras seleções, como ‘Un Certain Regard’, ‘Quinzaine des Réalisateurs’ e ‘Semaine de la Critique’. Uma noite especial será ainda reservada para o mestre português Manoel de Oliveira, quase centenário, que faz 100 anos em dezembro próximo. Longa vida ao Cinema (apesar da pirataria que o fustiga em todo o mundo).



Escrito por Mostra às 09h53
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PRÊMIO A PADILHA CALA DETRATORES
José Padilha

PRÊMIO A PADILHA CALA DETRATORES

Com o militante humanista Costa-Gavras na presidência do júri internacional do 58º Festival de Berlim não poderia ser diferente. Gavras marcou o cinema com denúncias à falta de liberdade de expressão e injustiças. Seus filmes eram censurados e proibidos em várias partes do mundo sem liberdade de expressão, inclusive no Brasil. Costa-Gavras deu o Urso de Ouro ao filme brasileiro de José Padilha TROPA DE ELITE/ THE ELITE SQUAD. O presidente do júri deve sentir-se vingado das perseguições que indiretamente sofreu também no Brasil, quando seus filmes Z e ESTÁDIO DE SÍTIO/ STATE OF SIEGE e DESAPARECIDO/ MISSING estavam no índex da ditadura militar.

Mas o que o júri de Berlim consagrou foi mesmo o bom cinema de ação com forte poder crítico e conteúdo político. O prêmio foi um ótimo cala-boca a uma crítica obtusa que enxergou no filme de Padilha mensagens de extrema direita. E a uma crítica especialmente maldosa, de Jay Weissberg, que saiu no Variety durante o festival, acusando o filme de fascista, que os irmãos Weinstein tinham entrado na produção do filme apenas na leitura do roteiro sendo depois tudo mudado pelo diretor, e que a sua narrativa em off manipulava os espectadores inteligentes.

José Padilha, como disse na entrevista final do festival, filma documentando, como se ainda estivesse nos documentários, pois este é a sua estréia em filmes de ficção. Portanto, ao vermos em seu filme tropas militares de elite executando traficantes de drogas nos morros do Rio de Janeiro ele não está inventando nada e nem maquiando seus personagens no estilo Rambo, como também diz a critica preconceituosa do ‘Variety’. Literalmente a critica usa a palavra “elevated”, elevando seus personagens de combate ao nível dos heróis tipo Rambo. Primeiro que personagem algum de um cinema instigante como TROPA DE ELITE pode ser elevado a esta comparação. Seria é rebaixado. Segundo, personagem tipicamente fascista é Rambo. Mas isso não cabe a ‘Variety’ apontar. O seu negócio é proteger o cinema americano e reduzir o cinema de todo o resto do mundo a um destino “limitado a apenas um circuito de festivais”, como sempre ‘ordena’ nas resenhas que publica.

Tive oportunidade de conversar longamente com Padilha nas gravações do programa Roda Viva na TV Cultura, em novembro passado. Disse-lhe que foi bom não nos termos precipitado em indicar TROPA DE ELITE como filme brasileiro candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Eu estava na comissão. E acertei em prever que a sua carreira internacional ainda estava para começar e que o filme iria longe, muito longe. Já está.

O grande prêmio do júri (Urso de Prata) foi justamente para um documentário americano – STANDART OPERATING PROCEDURE, de Errol Morris – de denúncia aos métodos nazi-fascistas das tropas americanas de ocupação no Iraque e onde presumíveis Rambos nada têm de heróico. Errol Morris fez SOB A NÉVOA DA GUERRA/ THE FOG OF WAR, estudando à distância as opiniões do super-secretário de defesa americano Robert McNamara (1961-1968) que teve ação desde os bombardeios de 67 cidades japonesas no fim da 2ª Guerra, até a crise dos mísseis em Cuba e a terrível Guerra do Vietnã.

Errol Morris usa o mesmo método distanciado para entrevistas pessoalmente a todos os envolvidos nas humilhantes torturas de prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib, cujas fotos correram e chocaram o mundo. Temos depoimentos frios e cínicos, principalmente de Lynndie England, a que mais aparece nas fotos ao lado do namorado com quem engravidou, Charles Graner. Esse, o mentor intelectual das torturas, um dos. Ele não fala no filme por estar cumprindo pena de 10 anos. Estranho que militares mais graduados nunca foram condenados a nada.

Ainda mais chocante do que as fotos revistas no filme é o próprio título dado a elas por um dos depoentes: Operação Padrão ou Standart Operating Procedure é como ele qualifica a maioria das fotos de tortura. Morris aumenta o espectro dos seus sapos de guerra/ frogs of war (Fog of War). Que sangue frio tem esses soldados do império americano.

E o favorito da imprensa estrangeira e alemã, que era o ótimo filme de Paul Thomas Anderson ( SANGUE NEGRO/ THERE WILL BE BLOOD – Jornal da Mostra nº 556) ficou com dois prêmios: Urso de Prata pela melhor direção e Urso de Prata a Jonny Greenwood pela música.

A inglesa Sally Hawkins como professora primária no sensível e divertido HAPPY-GO-LUCKY, de Mike Leigh teve o prêmio previsível de melhor atriz. E a surpresa foi o prêmio de melhor ator dado ao iraniano Reza Najie em AVAZE GONJESHK-HÁ/ THE SONG OF SPARROWS, de Majid Majidi. Com o elemento criança ainda bem aplicado, o filme trata dos sortilégios de um pai desempregado depois de perder o seu trabalho ordinário em uma granja de criação de avestruzes. Não vê quem não quer...

LAKE TAHOE, do mexicano Fernando Eimbcke (Jornal da Mostra nº 557) recebeu o merecido prêmio Alfred Bear (fundador do Festival de Berlim), pelo seu especial caráter inventivo.

Finalmente o destaque do júri como ‘melhor roteiro’ foi para o chinês Wang Xiaoshuai por ZUO YOU/ IN LOVE WE TRUST. A China moderna no filme de Xiaoshuai (de BICICLETAS DE PEQUIM/ BEIJING BICYCLES) entra na intimidade de dois casais. Mulher em segundo casamento tem de salvar a vida da filha com leucemia. O procedimento mais provável é engravidar de novo com o seu ex-marido para o transplante de medula com o futuro bebê. O que você faria no lugar. Esta questão está na medula de todos estes bons filmes que nos enchem de emoções e reflexões.

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Escrito por Mostra às 10h55
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O MESTRE WAJDA FINALMENTE FAZ ‘KATYN’
KATYN, de Andrzej Wajda

O MESTRE WAJDA FINALMENTE FAZ ‘KATYN’

O 58º Festival de Berlim permitiu-nos um encontro histórico com o cinema resistente e sempre perturbador do mestre polonês Andrzej Wajda. O grande mestre sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e ao terror nazista, onde viu seu pai desaparecer para sempre e, depois, à invasão soviética e ao stalinismo que espalhou tentáculos pelo seu devastado país. Em Berlim, Wajda mostrou KATYN, em apresentação especial, um filme que já nasce um clássico e que ganha impulso internacional também graças à sua indicação como um dos cinco filmes concorrentes ao Oscar de língua estrangeira. Em 2000 Andrzej Wajda recebeu Oscar honorário em respeito à sua longa carreira de filmes marcantes e pontuais que clamaram por humanismo e liberdade de expressão.

Andrzej Wajda, 82 anos, só agora consegue total liberdade para expressar a dor da sua Polônia sobre um dos mais terríveis massacres perpetuados durante a Segunda Guerra Mundial. “Precisei esperar o colapso do comunismo para revelar a verdade”, disse Wajda no seu encontro com a imprensa em Berlim. Os soviéticos planejaram friamente o massacre de 22 milhões de oficiais poloneses, mortos um a um com um tiro na cabeça, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, na Rússia. Mas até o fim do seu império fizeram propaganda enganosa e lavagem cerebral para atribuir a responsabilidade do genocídio de toda uma geração de intelectuais e técnicos poloneses aos nazistas.

“Faço o meu cinema como sempre fiz há 50 anos”, reagiu Wajda para afirmar que não se trata de um filme político. “Este é um primeiro filme sobre um tema tabu, mas é também sobre as minhas memórias. Meu pai foi uma das vítimas do massacre de Katyn e está viva na memória a imagem da minha mãe que nunca perdeu a esperança de tê-lo de volta da guerra. Minha mãe e eu líamos todos os dias as listas de nomes no jornal para ver se aparecia o do meu pai. O que o serviço secreto soviético fez foi destruir de uma só vez toda uma geração de intelectuais, que foi para ceifar o potencial criativo e de resistência de uma nação. Isto é sempre repetido através da história em várias épocas. Até hoje a Polônia sofre as conseqüências destas perdas irreparáveis”.

O episódio lembra que o plano de eliminar os intelectuais poloneses ofereceu uma oportunidade única aos nazistas e stalinistas. Em 1º de setembro de 1939 o exército alemão ocupa o leste da Polônia. Algumas semanas depois é a vez do Exército Vermelho invadir o país graças ao pacto Hitler-Stalin. Ato seguinte o Exército Vermelho, com o cinismo amigo da proteção, oferece custódia a todos os reservistas, militares graduados e intelectuais para logo deportá-los à URSS.

“Meu avô também foi executado nesta guerra”, completou a atriz Maja Ostaszewska, a principal no filme, que interpreta a esperançosa Anna, que busca desesperada o paradeiro do marido oficial. Wajda lembra ainda que “não só poloneses foram mortos em Katyn. O terror soviético massacrou mais um incontável número de pessoas no mesmo lugar, ucranianos e de muitos outros perseguidos pelo terror stalinista, que igualmente precisam ter suas histórias reveladas”.

O massacre de Katyn é conseqüência do pacto de Hitler e Stalin, cada lado com seus planos secretos de supremacia e dominação mundial. Do lado alemão da invasão polonesa também houve um massacre implacável – contra a geração de intelectuais mais idosos, professores universitários em Cracóvia, como mostra o filme. “O cinema sempre retratou as crueldades da guerra, mas só falou das atrocidades cometidas pelos alemães. A escola polonesa de cinema pelo menos sempre fez seus filmes com esta visão. Quem sabe agora”, diz Wajda, “isto também seja uma lição de cinema para seguir adiante para mais revelações”. E o mestre Wajda completa: “Este filme completa a minha carreira. Se fizer um novo filme talvez trate de um flagelo contemporâneo. Estou observando que mais de dois milhões de poloneses deixaram o país nos últimos anos em buscar de melhores oportunidades no estrangeiro. Este êxodo pode ser um bom argumento para o meu próximo filme”.

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Escrito por Mostra às 10h55
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UMA VIAGEM INICIÁTICA COM DORIS DÖRRIE
FLORES DE CEREJEIRA – HANAMI, de Doris Dörrie

UMA VIAGEM INICIÁTICA COM DORIS DÖRRIE

Um filme alemão de baixo orçamento promete ser um dos maiores sucessos do ano. FLORES DE CEREJEIRA – HANAMI/ KIRSCHBLÜTEN – HANAMI/ CHERRY BLOSSOMS – HANAMI foi apresentado na competição do 58º Festival de Berlim e nele a conhecida diretora Doris Dörrie ajudou a fazer praticamente de tudo na produção. “Só assim foi possível viajar da Bavária ao Japão, contando com equipamento digital leve e fácil de trabalhar, mas contando fundamentalmente com um ótimo elenco de atores”, diz a cineasta que ganhou projeção mundial em 1985 com a comédia HOMENS/ MÄNNER.

O principal suporte artístico do filme está na extraordinária interpretação de Hannelore Elsner. O seu par no filme é também o ótimo (e desconhecido em cinema) Elmar Wepper, que Doris Dörrie foi buscar da televisão onde ele atua em produções igualmente baratas.

O curso da história é muito comovente ao mesmo tempo em que faz críticas ácidas ao jeito do ser alemão, em especial sobre os alemães da Bavária, considerados mais metódicos e tradicionalistas. Quem quiser pode ver também referências ao passado alemão nazista, onde a Bavária foi o principal ‘berçário’, e cujo cinema mitificava os símbolos derivados das montanhas. O fetiche da montanha é transferido aqui ao monte Fuji do Japão.

Começa o filme com um médico revelando a uma mulher que o seu marido está com uma doença terminal. Ela não vai contar nada para o marido. Vai tentar estimulá-lo a realizar seus últimos sonhos enquanto é tempo. Aí entra o espírito alemão, regrado, metódico. Ele prefere esperar mais um ano até se aposentar. E “montanha por montanha, na Bavária também as temos, para que ir ao Fuji, mesmo que seja a pretexto de ver o filho que está lá a trabalho?”, ele argumenta.

Aos poucos vamos entrando nesta viagem iniciática. A primeira viagem que ele aceita fazer é para Berlim, onde vivem seus dois outros filhos e netos. Os pais, Trudi e Rudi, são considerados um estorvo para os filhos e ninguém tem tempo para sair com eles. Mas Trudi consegue ao menos ver uma performance de teatro Butô, que ela adora e Rudi não suporta.

É quando acontece o inesperado. Na segunda viagem que ele aceita fazer com a mulher, ir a um hotel beira-mar no Báltico, Trudi morre. Que ninguém fique zangado com a leitura deste resumo. A própria Doris Dörrie é quem revela estes acontecimentos na sinopse do filme.

O que realmente está em questão são os elementos emocionais que o espectador irá compor a partir de então. Com Rudi sozinho, sem saber que também está para morrer, ele decide viajar finalmente ao Japão. Mais para realizar o desejo da mulher já morta, do que para ver o filho. Veremos então a transformação de um homem seco e rude em um ser emocional que aos poucos irá perceber o que fez de errado e estúpido na vida. Coisa rara na vida de pessoas que envelhecem aguçando mais que tudo suas contradições. Por isso a comoção que provoca nos espectadores.

O estímulo de Doris Dörrie é como dizer “faça antes de seja tarde”. E o tratamento respeitoso que ela dá à cultura japonesa, mesmo sendo crítica, corrige os desvios do filme anterior de choques culturais com o Japão, a comédia de Sofia Coppola ENCONTROS E DESENCONTROS/ LOST IN TRANSLATION. Mas o filme alemão também é cruelmente realista. As últimas palavras dos filhos sobre os seus pais fazem ver que os ciclos de insensibilidade seguem se repetindo. Mesmo que o jeito de mistificar uma montanha em nossos dias seja distinto.

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Escrito por Mostra às 10h54
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‘LAKE TAHOE’ E O OUSADO MERGULHO NO REAL
LAKE TAHOE, de Fernando Eimbcke

‘LAKE TAHOE’ E O OUSADO MERGULHO NO REAL

LAKE TAHOE é o nome de um lago em Sierra Nevada, entre os estados norte-americanos de Nevada e Califórnia. Não há motivo aparente para ele ser também o título do segundo filme do mexicano Fernando Eimbcke, cujo filme de estréia TEMPORADA DE PATOS/ DUCK SEASON, de 2004, correu o mundo.

O filme, em competição no 58º Festival de Berlim, não trai a essência minimalista e multifacetada que tem marcado o moderno cinema mexicano. Uma essência que se mostra irrequieta para experimentar novas linguagens e provocações sensoriais. O mundo exterior deve parecer uma composição artificial para suportar o mundo interior de personagens aturdidos por suas mentes perturbadas. Tanto Eimbcke quanto a co-roteirista de LAKE TAHOE reagiram guiados pela memória de perdas de seus pais. Ele, do pai e ela da mãe.

É com as primeiras lembranças de Fernando Eimbcke que o filme começa e vai dando a impressão de que não se irá a lugar algum. Muito menos a uma distante Lake Tahoe que no passado podia até ter pertencido às culturas pré-colombianas que hoje formam o estado mexicano. O filme começa com uma batida de carro, um acontecimento real na vida do jovem diretor, seguido da morte de seu pai.

O filme abusa da quebra narrativa fazendo inúmeras vezes a tela ficar em total escuridão. Mas depois que o filme acaba faz mais sentido. O jovem que bate o carro num poste, em um cenário de cidade de interior, de desolação, silêncio e melancolia, sai em busca de ajuda e o que encontra mal dá para recompor a sua abalada harmonia. Como imagens do inconsciente, o filme traça com honestidade um quadro de vida real, de novo focado em adolescentes e uma criança, ainda para ser descoberto por eles. Este é realmente um filme ousado e muito mais evidente do que os seus fragmentos que insistem em abandonar o espectador no escuro.

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Escrito por Mostra às 10h54
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ÉPICO SOBRE AMBIÇÃO LEMBRA ‘CIDADÃO KANE’
SANGUE NEGRO, de Paul Thomas Anderson.

ÉPICO SOBRE AMBIÇÃO LEMBRA ‘CIDADÃO KANE’

Talvez não haja outro filme tão perturbador sobre ambição em décadas como SANGUE NEGRO/ THERE WILL BE BLOOD, de Paul Thomas Anderson. Mas CIDADÃO KANE, de Orson Welles segue imbatível. Não parece ser essa a motivação do moderno diretor americano, mas ele sabe bem das coisas do cinema. Ao abraçar um projeto tão ambicioso como este, sobre um pioneiro da prospecção de petróleo nos EUA, Anderson também se adaptou ao star system hollywoodiano e construiu a sua impressionante epopéia focando precisamente suas câmeras na evolução de um personagem absoluto, interpretado pelo extraordinário Daniel Day-Lewis. Com um ator como ele nada sai errado. Mesmo a longa duração do filme (158 minutos) parece menos com a evolução de Day-Lewis em cena.

É inevitável comparar SANGUE NEGRO com a saga do personagem Kane criado por Orson Welles em 1941 e inspirado no magnata real da imprensa William Randolph Hearst. Anderson tirou o seu personagem épico, de ambição desmedida do livro OIL!, de Upton Sinclair. Por décadas seguidas CIDADÃO KANE é apontado como o melhor filme de todos os tempos. SANGUE NEGRO não vai ocupar o seu lugar, mas passa a ser mais uma boa referência sobre egoísmo, ambição cega e a estupidez da ganância. Anderson faz um cinema aplicado completando seus bons serviços ao espetáculo com inteligência. SANGUE NEGRO está na competição do 58º Festival de Berlim onde Anderson já ganhou o Urso de Ouro com MAGNÓLIA em 2000.

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Escrito por Mostra às 10h53
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UM FILME A SERVIÇO DE PENÉLOPE CRUZ
ELEGY, de Isabel Coixet

UM FILME A SERVIÇO DE PENÉLOPE CRUZ

Musa e garota-propaganda principal dos cosméticos L’Oréal, patrocinadora do Festival de Berlim há dez anos, a espanhola Penélope Cruz acaba sendo o rosto mais promovido por todos os cantos do primeiro grande encontro cinematográfico mundial do ano. Além de ter seu rosto em todas as publicações do evento, Penélope Cruz passou o fim de semana em Berlim também promovendo ELEGY, o novo filme em que atua e está na competição do 58º Festival de Berlim. Ela faz no filme o papel de Consuelo, uma rica estudante, filha de cubanos exilados nos EUA, que se apaixona por seu professor de literatura (Ben Kingsley), trinta anos mais velho.

ELEGY tem direção da diretora espanhola Isabel Coixet. Sua carreira foi impulsionada pela produtora de Pedro Almodóvar como a de Penélope Cruz. Só que de mulher para mulher, Coixet faz de Cruz uma atriz muito mais radiante e sedutora na tela. E como se fosse uma confidência entre amigas, o ambiente escuro e paranóico da casa do professor serve para desinibir Penélope fazendo cair o queixo do espectador com tanta generosidade íntima. Penélope Cruz é comparada a “Maya Desnuda”, do famoso quadro de Velázquez. Seus seios são cantados como os mais lindos do mundo e um dos quadros abusa do ridículo ao imitar revistas masculinas. A atriz aparece despida, de bruços, enquanto a câmera passeia sua lascívia por seu corpo até... terminar nos seus pés que calçam sapatos de saltos finos cor de vinho.

Quem leu livro do americano Philip Roth (The Dying Animal) diz que o original é muito mais tarado. Bem Kingsley e Dennis Hopper interpretam dois amigos que se aconselham o tempo todo como agir com mulheres, mas nenhum segue o conselho do outro. E eles também estão ótimos no filme de Coixet. O professor imagina sempre que vai perder a namorada e o complexo da idade começa a corroer a sua mente. A reviravolta final, bem do estilo da diretora, segue parecendo uma boa oportunidade para alçar ainda mais a Penélope Cruz ao altar das grandes musas do cinema.

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Escrito por Mostra às 10h53
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GUY MADDIN OUSA MAIS COM ‘MY WINNIPEG’
‘MY WINNIPEG’, de Guy Maddin

GUY MADDIN OUSA MAIS COM ‘MY WINNIPEG’

Para o cineasta autodidata e professor universitário Guy Maddin, o tempo não afeta o cinema. Pelo menos não o seu cinema que segue fiel às linguagens experimentadas pelos pioneiros na virada do século 19 para o 20. O tempo, nos filmes de Maddin tem influência e decisão somente sobre as questões da memória. E é este precioso elemento que dá vida aos seus filmes quase mudos. Desta vez, como filme de abertura da seção paralela Forum do 58º Festival de Berlim, Guy Maddin ousou ainda mais ao narrar ao vivo o próprio filme MY WINNIPEG.

No ano passado Guy Maddin ousou igual com o longa BRAND UPON THE BRAIN!, que teve em Berlim a narração de Isabella Rossellini e, em São Paulo, ainda melhor, de Marília Gabriela. Rossellini, aliada ao produtor de Guy Maddin, Jodi Shapiro, abriu a sessão de MY WINNIPEG com uma série de curtas GREEN PORNO, com sátiras bem humoradas sobre a vida sexual dos insetos.

Winnipeg é a cidade natal de Maddin. “Antes de se falar em mudança climática, Winnipeg era considerada a segunda cidade mais fria do mundo; espero que volte a ser de novo com a Sibéria uma das primeiras cidades congeladas”, disse o cineasta depois da exibição do filme em Berlim. Mas não é só do frio que MY WINNIPEG tem saudades. Como sempre Guy Maddin faz um filme triste e espirituoso como quem alerta também sobre os malefícios da velocidade que altera o tempo natural das coisas e das cidades que se imolam com símbolos da modernidade. Maddin reclama da ausência dos valores simples da vida e, sobretudo, da perda de inocências. Com o seu cinema único ele sugere resgatar a simplicidade da vida olhando para as gerações passadas, com respeito à natureza, à memória e aos sentimentos como valores essenciais e suficientes. Guy Maddin, mais que um cineasta narrando ao vivo seu filme no palco do antigo cine Delphi, mostrou-se um comovente missionário.

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Escrito por Mostra às 10h52
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IMPRENSA É O LADO ESTÚPIDO DOS MUSICAIS
CSNY – DÉJÀ VU, de Bernard Shakey

IMPRENSA É O LADO ESTÚPIDO DOS MUSICAIS

SHINE A LIGHT é o novo filme de Martin Scorsese. O documentário sobre os veteranos Rolling Stones não diz muito a que veio além de promover um grande movimento na abertura do 58º Festival de Berlim. No começo vemos o diretor nos preparativos das filmagens, nervoso e humorado como um Woody Allen. Ao longo do musical vemos os Rolling Stones no palco esbanjando energia. Entre canções Scorsese busca recheio com entrevistas antigas do grupo inglês contemporâneo dos Beatles, em várias partes do mundo.

A seleção de entrevistas serve para mostrar como cada membro da banda trabalhou a sua ironia ao longo do tempo. Mas é prova principal de quão estúpida a imprensa também costuma ser diante de ícones da cultura pop. Aproveitando que a imprensa não tem nada de especial para perguntar, nada de especial se diz.

Ao serem exibidos no mesmo dia inaugural do festival, SHINE A LIGHT foi comparado com outro musical americano, no mesmo curso, porém ativista e politizado – CSNY – DÉJÀ VU, de Bernard Shakey, que acaba sendo pseudônimo do cantor e compositor pacifista Neil Young. CSNY – DÉJÀ VU prova que há vida inteligente nos EUA. E também muitos jornalistas mais que estúpidos – raivosos e virulentos e dispostos a rebater qualquer opinião contrária ao stabishment. Neil Young reúne em seu filme os músicos originais do grupo Crosby, Stills, Nash e Young, formado há mais de 40 anos, para uma nova tournée pela América com o concerto “Freedom of Speech Tour”. A tournée pela liberdade de expressão, coisa que vemos, falta na América de Bush. O grupo excursiona comparando a atualidade com os que eles também viveram lutando contra a guerra do Vietnã. Havia mais mobilização por uma causa naquele tempo, hoje vivemos em uma ditadura, declara David Crosby no filme.

Ao aprestarem uma canção que pede o impeachment de Bush por ele ter mentido seguidamente ao mundo para fabricar a guerra contra o Iraque, muitos da platéia se retiram indignados. Mas a maioria fica e canta junto. Mas o mais chocante é a maioria da imprensa atacando a volta de Crosby, Stills, Nash e Young. Os artigos em todos gêneros de mídia são reproduzidos ironicamente dentro do filme. Afinal o concerto prega a liberdade de se falar e pensar o que bem se quer. Não o que incita a indústria bélica. Estamos de volta com Neil Young ao tempo de CORAÇÕES E MENTES, o filme de Peter Davis, de 1975, que marcou o seu tempo pelo seu ativismo contra a guerra do Vietnã. Esperamos que CSNY – DÉJÀ VU consiga o mesmo feito.

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Escrito por Mostra às 10h52
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